Paladar

U Fleku: como se diz ‘não quero Schnapps’ em checo?

10 julho 2010 | 19:44 por Roberto Fonseca
Relógio na porta do U Fleku, que também aparece nos rótulos (Foto: Roberto Fonseca)

O segundo relógio mais famoso de Praga, que também aparece nos rótulos do U Fleku (Foto: Roberto Fonseca)

 Sabe como rastrear um fã de boas cervejas quando ele entra de férias (ou foge de algo, dependendo do contexto)? Simples: basta deduzir que o sujeito vai estar perto de algum centro cervejeiro de qualidade pelo mundo. Nos últimos anos, tenho pautado os roteiros de folga pela proximidade de exemplares da nobre bebida que valem uma degustação (ou, melhor ainda, bem mais de uma). Já antevendo a estiagem durante o período de trabalho eleitoral, resolvi em apegar aos clássicos: República Checa e Alemanha. Comecei pelo país que é lar da pilsen, nascida na cidade homônima em 1842. A primeira parada, porém, foi no segundo estilo mais famoso no país, o das dark lagers. Novas produções à parte, a estreia cervejeira em solo checo não poderia deixar de ser no U Fleku, que já havia visitado em 2002.

 

A fachada do U Fleku, na rua Kremencova (Foto: Roberto Fonseca)

A fachada do U Fleku, na rua Kremencova (Foto: Roberto Fonseca)

O local, com fachada imponente na escondida rua Kremencova, funciona como salão de jantares desde 1499, antes da descoberta do Brasil. Os proprietários do local se baseiam em uma certidão de venda do imóvel daquele ano a um dono de maltaria, chamado Vít Sk?emenec, para atestar que o U Fleku produz também produz cerveja há mais de 500 anos – há, em um dos cômodos, dois canhões que teriam sido usados na Guerra dos 30 anos, ocorrida no Século 17, que funcionam como uma espécie de “certidão de antiguidade” do local. A fabricação foi estatizada durante o regime comunista no país, e  só em 1991 voltou aos proprietários anteriores, a família Brtník. Os equipamentos foram modernizados – os antigos, parte deles ainda em madeira, estão expostos num mini-museu no local -, mas o U Fleku segue produzindo um único estilo, o Tmavy Lézak (ou dark lager). Pelo que me lembrava, era uma excelente cerveja; cheguei a trazer uma garrafa para o Brasil em 2002, de tão impressionado que fiquei com ela. Guardei no álbum de fotografias o rótulo, que leva a imagem do relógio que aparece na fachada do U Fleku (o segundo mais famoso de Praga, perdendo apenas para o espetacular relógio astronômico que fica na Praça da Cidade Velha). Muita coisa, porém, mudou desde então, como pude constatar.

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OK, o lugar já era bastante turístico em 2002, mas parece ter ficado ainda mais agora, para o bem e para o mal. Aliás, não só o U Fleku, mas a cidade toda – preços bastante altos, casas de câmbio com valores “flutuantes” que parecem feitas para enganar turistas e algazarra por todo lado. Mas continua belíssima, com o centro histórico imponente e belas cervejas. Esse paradoxo se reflete no U Fleku. Logo que cheguei com a Gi, fomos levados para uma mesa de forma um tanto apressada, que só perdia em rapidez para a entrega dos cardápios e para a cara de impaciência do garçom à espera de pedidos. Antes que conseguisse pedir a cerveja, porém, um dos atendentes, com uma bandeja repleta de schnapps, estendeu um copinho em minha direção. Neguei uma, duas, três, quatro vezes, e o sujeito ali, de braço estendido, agitando o destilado. Temendo que ele começasse a ter cãibras e caísse no chão, aceitei. Péssima ideia: álcool puro, que atrapalhou, por alguns instantes, os sabores da Tmavy Lézak.

Passados os primeiros obstáculos, os pratos e a cerveja estavam bons, é verdade. Mas incomodou um pouco o sistema “bar badalado paulistano”, em que o garçom circula com várias canecas de chope e substitui a sua antes mesmo de acabar. Saí satisfeito com a cerveja, mas um tanto bodeado pelo nada admirável mundo novo que tomou conta da cervejaria. Nem me animei a trazer uma garrafa para casa, mas tudo bem. Afinal, a viagem ainda era bastante longa e com diversas paradas cervejeiras, como conto no próximo capítulo.

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