Paladar

Weltenburger: a vitória da original

05 julho 2010 | 13:02 por Roberto Fonseca
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A da esquerda é a alemã; a da direita, a versão brasileira

DUELO NO COPO: WELTENBURGER BAROCK DUNKELEstilo:lager / dunkel
Teor %: 4,7% em ambas 
Cor: Castanho escura, translucidez média a alta na alemã; idem na brasileira
Espuma: Bege, de média formação e duração na alemã; na brasileira, creme, com a mesma formação e duração
Aroma: Na alemã, malte, caramelo, toffee, adocicado, algo de frutas secas. Na brasileira, leve caramelo, algo doce, menos complexo que a original, mas com lúpulo mais aparente e “fresco” que na alemã
Sabor: Na alemã, malte, leve torrado, caramelo, frutas secas, final seco, amargor médio para o estilo, corpo médio, carbonatação idem. Na brasileira, malte mais moderado e menos complexo, final bem mais seco que na alemã, corpo médio a baixo, carbonatação média a alta (maior que na original).
OBS: a amostra alemã foi comprada na loja diante da fábrica, em Weltenburg, e tinha validade até fevereiro de 2011. As duas amostras brasileiras foram obtidas com a Cervejaria Petrópolis, e tinham vencimento em maio de 2011. Uma das amostras brasileiras tinha sinais de oxidação (a que lembra papel ou papelão), segundo os avaliadores. Foi, então, usada a segunda amostra.
RESULTADO: 4,0 em 5 para a alemã e 3,7 em 5 para a brasileira. A versão original tem mais complexidade de malte no aroma e sabor e mais corpo, embora perca para a brasileira no quesito lúpulo, provavelmente pelo tempo consumido entre a produção e a chegada ao País, que nesse caso foi abreviado, mas tenderia a demorar mais em caso de importação direta.

 

Ficou com água na boca?

“Você sabia que tem uma cervejaria aqui perto que vai produzir umas receitas lá no Brasil? Ela fica em um mosteiro”. A notícia, dada por Matthias Trum, mestre-cervejeiro da Schlenkerla, durante um bate-papo no bar da cervejaria, em Bamberg, pareceu confusa a princípio. “Weltenburger? Estive lá há alguns dias, mas não me pareceu o tipo de cervejaria que terceirizaria a produção, ainda mais para o Brasil. Trata-se de uma produção instalada em um belo mosteiro na beira do rio em Weltenburg, a poucos quilômetros da fábrica da Schneider. O mosteiro de vangloria de ter começado a produzir cerveja em 1050, rivalizando com a Weihenstephaner, que teria iniciado a sua fabricação em 1040.  “Não seria a Bitburger, que teve uma passagem meio apagada pelo País?”, perguntei de volta. Não, era a Weltenburger mesmo, e seria feita pela Petrópolis em parceria, como comprovei depois ao ler um site cervejeiro alemão. Quando voltei da viagem de férias, a notícia já havia corrido sites e comunidades brasileiras. O “frango” noticioso, porém, foi seguro pelas penas antes de entrar no gol. No momento em que conversava com o Matthias, já trazia na bagagem uma Weltenburger Barock Dunkel, que, coincidência, era a primeira a ser lançada pela Petrópolis por aqui. Era a oportunidade para um duelo direto.

Entre obter as cervejas nacionais e convocar os degustadores para o confronto – o cervejólogo Eduardo Passarelli, sócio do bar Melograno, e Alexandre Bazzo, cervejeiro e um dos sócios da Bamberg, micro paulista especializada em estilos alemães -, passou-se um mês. A degustação comparada foi feita no Melograno no dia 27, domingo de Alemanha x Inglaterra e Argentina x México. A primeira constatação da dupla foi no visual: “A espuma da brasileira parece mais densa”, afirmou Passarelli. Bazzo também avaliou que a virtude da versão nacional era ter o lúpulo mais “fresco” no aroma. Para a dupla, porém,  a cerveja feita na Alemanha tem aroma de malte mais complexo, com caramelo, toffee e até notas de frutas secas. Essa vantagem da complexidade se repetiu no aroma, sendo que a alemã ainda mostrou ser um pouco mais encorpada.

Eduardo Passarelli e Alexandre Bazzo testam as Weltenburgers (Foto: Alex Silva/AE)

Eduardo Passarelli e Alexandre Bazzo testam as Weltenburgers (Foto: Alex Silva/AE)

Resultado: “As duas cervejas são boas, mas a alemã ganha”, afirmou Passarelli, com a concordância de Bazzo. O cervejeiro da Bamberg especulou algumas possibilidades para as diferenças entre as cervejas. “Podem ter usado um fermento diferente na brasileira, que não ressalte tanto o caráter de malte quanto na alemã. Ou a brasileira teve uma atenuação (consumo de açúcares presentes no mosto da cerveja) maior que a original para chegar ao mesmo teor alcoólico

Mal chegou ao mercado com a Barock Dunkel, a Petrópolis já lançou mais uma cerveja em parceria com a Weltenburger: a Anno 1050. Essa, infelizmente, eu não trouxe da Alemanha, mas já está na geladeira.

Em tempo: O Grupo Petrópolis enviou nota a respeito da degustação comparativa. “Gostaríamos de esclarecer que, de acordo com nossos mestres cervejeiros e os mestres cervejeiros da Weltenburger , as cervejas são rigorosamente iguais no momento em que saem do envase. Assim, as diferenças sentidas podem  se oriundas das diferentes condições de transporte e tempo de armazenagem.”

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