Paladar

Uai, o que eles têm?

15 novembro 2012 | 02:05 por Patrícia Ferraz

Nas gôndolas dos supermercados, nas cafeterias pelo Brasil e também nos concursos de qualidade só dá Sul de Minas. A lista de vencedores da décima terceira edição do Cup of Excellence reafirmou essa sensação com números curiosos: dos 24 vencedores, cujos lotes vão a leilão em janeiro, dezoito são associados da Cooperativa Regional dos Cafeicultores do Vale do Rio Verde, a Cocarive, que congrega produtores da região de Carmo de Minas.

 

Mas será que eles têm algum segredo? Sim e não. O presidente da Cocarive, Ralph de Castro Junqueira, conta que desde 2002 tomou corpo um programa de qualidade das propriedades da região. Uma equipe de engenheiros agrônomos visita as fazendas e orienta sobre o manejo da lavoura, o momento de certo de colher os frutos e os cuidados na secagem. Além disso, a entidade mantém um laboratório de classificação. Provadores percorrem os cafezais em busca de grãos competitivos para os concursos. Ou seja: não há aventureiros. É uma estratégia bem engendrada para vencer. “Existe uma combinação de fatores. Estamos numa região de clima ameno, altitude elevada, bons índices de chuva e período de seca bem definido. A área é privilegiada e os produtores têm tido dedicação”, pondera Junqueira. Além da ação conjunta de educação e de marketing, Sebastião Marcio Nogueira, gerente do departamento técnico da cooperativa, inclui mais um ponto positivo: um solo rico em potássio, que contribuiria na formação de açúcares nos grãos.

 

FOTO: AFP
 

O grande vencedor da disputa, Vinicius José Carneiro Pereira, cujo café, um bourbon amarelo, recebeu nota 91,79 do júri internacional, quase credita o sucesso à sorte. Na edição anterior do Cup of Excellence, os grãos do mesmo talhão ficaram na 13ª colocação. Mas o que ele fez de diferente em 2012? “A produção foi menor. Consegui colher o café mais maduro, bem vermelhinho. E melhoramos o processo de secagem no terreiro”, entrega. O resultado está nas dezoito sacas que vão a leilão, com grãos que apresentaram doçura, acidez cítrica e notas de chocolate e caramelo.

 

Degustador internacional do Cup of Excellence e exportador, Silvio Leite inclui mais uma peça no quebra-cabeça de Carmo de Minas: eles se inscrevem em massa. Simplesmente, competem mais do que outras regiões. “O concurso é aberto a todos os produtores de arábica do Brasil. Mas recebemos muitas inscrições da Cocarive”, diz o especialista. Segundo ele, não tem marmelada. O processo é auditado e os jurados são compradores de Ásia, Europa, Oceania e Estados Unidos, que mudam ano a ano, passam por uma calibragem antes do julgamento e obedecem a um método de avaliação padronizado internacionalmente. “Em Carmo de Minas, eles se esmeraram em produzir um supercereja, vermelhinho e doce. Esses cafés são bem-aceitos pelo júri: equilibrados, com tendência a acidez”, analisa. “Não podemos esquecer que se trata de uma avaliação sensorial”. Ou seja: há um fator ‘gosto’ envolvido no concurso. Os ótimos cafés de Carmo de Minas caíram nas graças dessa turma.

 

Mas Silvio Leite acredita que seja necessário buscar novas ferramentas de avaliação para valorizar as especificidades de cada região, mostrando a diversidade de sabores existentes no café brasileiro. Ele afirma que, pessoalmente, é uma inquietação. “A metodologia funciona. Mas quero mais. Sou brasileiro, provo cafés do mundo inteiro. Precisamos encontrar um jeito de diversificar”, conclui. Até lá, você mesmo, trate de beber os cafés do Brasil. Já experimentou um grão capixaba ou baiano hoje?

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