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2021: Quando o clima definitivamente mudou

Saiba o que foi definitivamente marcante no mercado do café em 2021

31 de dezembro de 2021 | 16h09 por Ensei Neto

2021 foi um ano que ficará marcado profundamente na vida das pessoas que vivem do café e, também, fazem do café sua vida.

Um dos prenúncios mais importantes foi o da passagem de 2020 para 2021, quando houve a confirmação da atividade do fenômeno La Niña pelo segundo ano seguido, algo, até então, inédito. O resultado de seus efeitos, por exemplo, é a escassez de chuvas no principal cinturão de café do Brasil, que fica compreende os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo e suas importantes regiões como Alta Mogiana, Cerrado Mineiro, Sul de Minas, Matas de Minas, Montanhas do Espírito Santo e Pontões Capixabas.
A menor quantidade de chuva afetou a qualidade média do café produzido, bem como em sua quantidade. Mais grãos chochos surgiram no mercado, proporções bastante acima do normal.

Quando tudo parecia entrar nos eixos, com o início da colheita, em fins de maio para boa parte das regiões produtoras, uma sequência de massas polares trouxe um dos maiores pesadelos aos cafeicultores: a geada.

Geada ocorrida na Alta Mogiana. Foto: Antônio Sergio.

Ventos frios abaixo de 4ºC podem dizimar grandes áreas de cafezais, num fenômeno conhecido por geada negra, tal qual aconteceu em 1994 no Norte do Paraná e parte do Sul de Minas.

O primeiro impacto no mercado foi o súbito e expressivo aumento das cotações do café, que mais que dobraram, refletindo a preocupação com provável escassez para os anos de 2022 e 2023. A exemplo do que aconteceu após as geadas de 1975 e 1994, a explosão de preços aconteceu entre um e dois anos depois, chegando a estratosféricos US$360/saca 60kg em 1996.

Um dos desdobramentos de 1994 foi o crescimento da produção de robustas pelo Vietnã, hoje o segundo maior produtor de café em geral do mundo. E neste ano de 2021, o cenário mostra a importância que os canephoras produzidos no Brasil alcançaram.
Anteriomente ,apenas no norte do Espírito Santo, o cultivo de variedades como Conilon e Robusta está presente, hoje, também no Sul da Bahia, Leste de Minas Gerais, em Rondônia, e, quem diria, a Alta Paulista, em São Paulo.

Café conilon. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Com produtividade muito maior que as variedades de arabica podem alcançar, o canephora tem despertado o interesse de muitos produtores e, principalmente, de instituições de pesquisa e profissionais independentes.

A busca para se obter cafés com bebidas excelentes tem sido a tônica nos últimos anos, além da melhoria dos trabalhos de pós colheita, principalmente na secagem dos grãos.
Alguns produtores já tem produção de lotes de especialidade, alguns com torrefação própria, num sinal de que há nítido orgulho em apresentar esses grãos antes despercebidos e até desconhecidos do público consumidor.

A oferta de produtos de alta qualidade é dependente de um processo de educação do consumidor, que ele tenha acesso e, portanto, conhecimento das novidades. Como em todos os setores, além do grande mercado, dominado por produtos de qualidade média, existe o espaço para a excelência.
Um dos termômetros desse movimento, que ganhou maior expressão em 2021, foi a organização de grande quantidade de concursos de qualidade para os Canephoras do Brasil.

Se as mudanças climáticas se tornaram mais evidentes, temporais extremos em algumas regiões, secas prolongadas em outras, tornados se formando onde seriam impensáveis, o despertar para uma produção agrícola e de café com maior atenção ao meio ambiente aconteceu.
Diversos cafeicultores perceberam a importância de uma convivência mais, digamos, civilizada com a Natureza, procurando dividir de forma coerente o espaço com quem de fato temos dependência. Usar os recursos de solo e água de maneira sábia e respeitosa foi uma das grandes mudanças observadas neste ano que se encerra.

Florada de Conilon e abelhas. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Os processos de certificação de produção se tornaram comuns aos produtores, porém não existe certificação mais confiável do que uma que seja expressão direta do modo de funcionamento da Natureza. Vem ganhando importância a aliança com as abelhas para a polinização de diferentes culturas no Brasil, como já aconteceu em diversos países como Estados Unidos no cultivo de macadâmias e de frutas em geral na Europa.
As abelhas são seres muito sensíveis aos agrotóxicos e podem se tornar fundamentais também na cafeicultura ante as mudanças climáticas, quando uma ajuda na polinização pode ser decisiva para maior produtividade e, também, na qualidade do café.

A convivência em equilíbrio com a Natureza e seus habitantes pode levar a resultados promissores em todos os sentidos.

Se lidar com espécies de café diferentes é complexo, imagine quando o assunto é sobre quem produz. Um movimento que há aproximadamente dez anos começou como iniciativa da antiga SCAA, hoje SCA – Specialty Coffee Association, é o do Café Feminino, iniciado em alguns países da América Central, que levou à criação da IWCA – International Women’s Coffee Alliance.

Diferentemente do que se pensa, em diversos países a produção de café está sob responsabilidade das mulheres, uma vez que, por questões econômicas, os maridos saem de casa em busca de outras ocupações para obter renda para suas famílias.
No Brasil, o movimento surgiu como expressão da importância do trabalho feminino na cadeia produtiva do café, ganhando a adesão de importantes empresas do setor, como a torrefação 3 Corações e sua série especial de cafés Florada Premiada, dedicada aos cafés produzidos por mulheres.

Cafeicultora e seu café torrado. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Em 2021, o número de marcas de café de produtoras teve aumento surpreendente, além da maior representatividade feminina em todos os segmentos como no de classificação e seus Q Graders, na torra e as Mestres de Torra e, é claro, as Baristas.

São tempos de mudanças, definitivamente!

Feliz 2022!

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