Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

As artesãs de Divinolândia e a torra do café no ‘bolinha’

Pequenos produtores da cidade paulista abrem seus sítios para visitação; a torra do café é feita no próprio local

03 de junho de 2019 | 18h49 por Ensei Neto

No início do século 20, o Estado de São Paulo assumiu a liderança da produção de café no Brasil em razão de suas terras férteis, principalmente a famosa terra roxa da região de Ribeirão Preto, além de clima e topografia muito favoráveis até então.

Uma grande produção pede uma boa estrutura para seu escoamento. No caso paulista, essa necessidade desencadeou a implantação da ainda maior malha ferroviária em nosso País, o que estimulou o surgimento de novas cidades a cada local desenhado para o descanso das locomotivas.

As grandes geadas que aconteceram em 1975 e 1994 mostraram que o clima não era assim tão favorável. Houve também o surgimento do Proálcool e grandes incentivos para que a cana-de-açúcar fosse o cultivo estratégico para o programa do governo na época. Com isso, a cafeicultura ficou em segundo plano.

Algumas regiões, como Alta Paulista e Alta Mogiana, continuam a produzir café em boa quantidade em São Paulo, mantendo viva as origens do Estado.

Divinolândia fica encravada nas escarpas entre São Sebastião da Grama, Caconde e Poços de Caldas e tem um belo histórico de projetos com pequenos produtores. Apesar de algumas grandes propriedades, boa parte da atividade agrícola do município acontece em sítios de menos de 10 hectares, de onde cada família procura diversificar suas atividades. Como é muito comum nesse modelo de produção, a cafeicultura tem grande importância, porque se torna sua mais poderosa moeda de troca.

Artesãs de Divinilândia torram as sementes de café no torrador bolinha. FOTO: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

Numa iniciativa dos produtores, a Associação dos Produtores de Café de Divinolândia (Aprod) foi criada com o objetivo de auxiliar a comercialização dos cafés e de proporcionar treinamento e conhecimento.

Um dos projetos mais bacanas é o de transformar os sítios dos produtores em locais de visitação, pois em muitos deles também são produzidos maravilhosos queijos, bolos e geleias, fonte de renda adicional para as famílias. Nada melhor que receber visitas com café e delícias produzidas no próprio sítio!

Um dos indicadores mais importantes é o fato de que grande parte dos associados da Aprod reserva seu melhor lote de café para oferecer às visitas e para o seu dia a dia. É a melhor prova de que “coisa boa se consome em casa”!

A Aprod organizou um treinamento de torra de café usando o torrador bolinha especialmente para as esposas dos produtores, que são as responsáveis pelo controle de qualidade e da secagem das sementes do cafeeiro durante a colheita.

Considero o torrador bolinha um dos utensílios mais incríveis porque seu desenho obriga a um processo de tal forma ordenado que a torra sempre fica magistral. Melhor ainda se a matéria-prima for boa, como foi durante o treinamento que ministrei.

Os cafés torrados no dia foram experimentados em seguida, para que todos pudessem compreender os resultados. Posso afirmar que foi simplesmente emocionante ver a surpresa inicial se transformando em alegria com risadas fartas ecoando pelo salão da associação.

É muito importante apoiar essas iniciativas, pois só assim é possível manter uma região tão bela produzindo excelentes cafés e outros produtos artesanais.

Antes de visitar a Colômbia, visite nossos pequenos produtores…

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