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Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Climas extremos e o nosso café de todo dia

Estamos vivendo tempos de climas extremos. Como isso pode afetar o nosso café de todos os dias?

21 de julho de 2022 | 00h17 por Ensei Neto

A vida em nosso planeta depende de um delicado equilíbrio que a Natureza sempre conduziu de forma impecável, mas que a ação humana vem provocando alterações de grande impacto.
Há um consenso de que o clima mudou em razão de emissão de gás devido à queima de combustíveis fósseis e diminuição da camada de ozônio, enquanto seus reflexos estão sendo percebidos e ainda compreendidos.

Florada do café. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

 

Os princípios conceituais de produção e da qualidade de qualquer produto agrícola estão fortemente vinculados às condições climáticas, tendo nas floradas o seu ponto de partida.
No caso dos cafeeiros, sabe-se que a indução de botões florais e a floração dependem de diversos fatores como a arquitetura da planta, da distribuição espacial empregada na lavoura e características genéticas entre outros.

A florada e a consequente fecundação definem o potencial produtivo de um cafezal.
É a primeira expectativa que o produtor tem e que lhe permite fazer algumas contas preliminares sobre o que poderá ser seu faturamento ao final da safra.

Sabe-se que plantas de Coffea arabica tem 44 cromossomos, o que lhe dá, digamos, um ar mais esperto em relação as de Coffea canephora com seus 22 cromossomos.
Cafeeiros Mundo Novo, Bourbon e Catuaí se orgulham de não dependerem de terceiros pois são autopolinizantes, restando uma quantidade marginal que poderia eventualmente ser trabalhada por agentes externos. Os clones de Robusta e Conilon dependem da ajuda imprescindível das abelhas para que a polinização aconteça.

Se por um lado, o maior número de cromossomos das variedades do arabica lhe empresta uma suposta superioridade, é onde ironicamente reside sua maior fragilidade, pois há um evidente processo de seleção até se chegar a um indivíduo com características de homozigoto.
Afinal, uma característica pura pode ser tanto do bem quanto do mal.

O que dá aos canephoras maior capacidade de adaptação é justamente a necessidade de sua fecundação acontecer por polinização cruzada, aumentando exponencialmente a variabilidade das características de seus indivíduos.

Cafeeiro. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

 

Só para lembrar: nosso universo tem como característica ser formado por indivíduos, daí ser tão importante o chamado “olhar estatístico” para tudo o que ocorre na Natureza. Não há necessidade de saber fazer os complicados cálculos, mas, basta ter a compreensão do impacto de um evento em relação ao número de envolvidos.

O pólen, que é responsável pela fecundação das flores, basicamente é constituído de proteínas, o que explica a necessidade de se dispensar extremo cuidado na sua conservação e durante seu uso. Como as flores sempre ficam ao tempo, a intensidade de raios ultravioleta pode afetar a viabilidade do pólen.

Admitindo que nosso planeta é quase esférico, levemente abaulado, este gráfico foi criado para melhor compreender o comportamento da quantidade de luz num determinado local.

Luminosidade. Arquivo: Ensei Neto.

 

Lembro que a latitude tem correlação direta com a quantidade de luz incidente ao longo do ano, levando em consideração a variação devida ao deslocamento do eixo de rotação, que é de 23º27’.

Anos atrás, um fato que me chamou muito a atenção era a quantidade de grãos moca nos lotes produzidos na região de Paracatu-Unaí, MG, a 14º de latitude sul, em relação aos do Triângulo Mineiro, principalmente Patrocínio, 18º de latitude sul.
Comecei a levantar os dados de diferentes regiões durante quase 8 anos e este foi o resultado:

Grãos moca e latitude. Fonte: Ensei Neto.

 

Ficou claro que havia uma relação direta entre intensidade de raios ultravioleta com maior quantidade de mocas nos lotes de menores latitudes. Os trópicos são linhas imaginárias que representam a maior cobertura do que seria a região da linha do Equador devido à inclinação do eixo rotacional da Terra. Isso explica o porquê do Trópico de Capricórnio ter latitude de exatos 23º27’, que corresponde aos limites do município de São Paulo.

Localidades com maior proximidade à linha do Equador recebem uma carga de ultravioleta muito intensa porque sua incidência é praticamente perpendicular à Terra, sofrendo menos perdas ao atravessar a atmosfera. Esta é a razão da variação da quantidade de moca em diferentes latitudes.

Apesar da glamurização e até gourmetização dos grãos moca, com diversas lendas rurais e urbanas, como a de que é um grão mais denso ou que absorveu os nutrientes de duas sementes, a verdade é que ele representa efetivamente uma perda real de produtividade, pois é resultado de fecundação de um único alojamento.
De dois indivíduos, restou apenas um.

Grão moca (peaberry). Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

 

Outro efeito de fecundação defeituosa é a frequência do chamada grão mal formado, que nos países centroamericanos e na Colômbia recebe o nome de flotador, enquanto que compradores internacionais denominam de floater, em inglês.
É grão que possui estrutura débil, maior fragilidade da parede celulósica e menor capacidade de se tornar um indivíduo completo, o que pode ser inferido pela menor quantidade de açúcares e de ácido cítrico, principalmente.
Sua densidade é consideravelmente menor em relação a um grão saudável, o que leva a um impacto direto na produtividade da lavoura.

Mal formados ou floater ou flotador. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

 

A qualidade do café tem relação direta com a uniformidade de um lote, portanto, de como são os indivíduos que compõem esse conjunto. Quanto mais parecidas forem suas características, tanto mais homogêneos podem ser considerados.

A partir da premissa que exista uma única florada, a uniformidade do lote será definida pela chamada janela de fecundação das flores, ou seja, a sincronia do ciclo fenológico ou ciclo da fruta. A distribuição das flores numa roseta faz com que cada qual receba diferente carga de luz e consequente exposição ao calor, o que leva aos diferentes momentos de fecundação.

Florada do cafeeiro. Foto: Ensei Neto/Arquivo pessoal.

 

Janelas de fecundação curtas, como aquelas decorrentes de suficiente estresse hídrico, levam à maturação com alta uniformidade.

O que molda a geografia econômica do mundo são os grandes eventos climáticos.

O Brasil é o país produtor de café com a maior amplitude de latitude das origens, desde o Maciço do Baturité, Ceará, com  6º Latitude Sul, ao Paraná com suas regiões subtropicais, próximas de 24º Latitude Sul.
Outro aspecto interessante da América do Sul, onde o Brasil ocupa praticamente toda a parte oriental e central, é o formato de triângulo com um dos vértices apontado para o Polo Sul, onde se originam poderosas massas polares que podem levar extremo frio às regiões cafeeiras.

Num passado recente, aconteceram duas grandes geadas, a primeira em 1975, que mudou o mapa cafeeiro do Brasil ao abrir uma nova região que se tornaria referência em tecnologia e produtividade, o Cerrado Mineiro, ao dizimar cafezais do Norte do Paraná, Alta Paulista, Noroeste e Sorocabana, em São Paulo.

A segunda aconteceu em 1994, coincidindo com a implantação do Plano Real, que fez o país sair de um longo período de hiperinflação.
Essa grande geada destruiu mais de 90% do parque cafeeiro do Paraná, além de causar grandes estragos na Alta Mogiana, Sul de Minas e na novata região do Cerrado Mineiro.
Uma nova reconfiguração do mercado aconteceu, desta vez com a emergência de um Tigre Asiático, o Vietnã e seus robustas. Para se ter idéia do crescimento de sua produção, em 1994 aquele país mal alcançou 250 mil sacas de 60kg, sendo hoje o segundo maior produtor mundial de café com mais de 30 milhões de sacas de 60kg.

A geada cria desdobramentos por pelo menos dois anos seguintes, tanto no campo das cotações e preços, com efeitos imediatos, como no desempenho das lavouras, que são percebidas mais gradativamente.
O efeito mais perverso é o da seca prolongada após o intenso resfriamento, similar ao que o ar condicionado faz no ambiente. A estiagem que se segue tem na amplitude térmica exagerada sua maior marca.
O ar seco é barreira menor para a incidência dos raios ultravioletas, que chegam mais intensos na superfície terrestre.

Fenômenos climáticos que mais têm recebido atenção nos últimos anos é a dupla El Niño e La Niña, que ficaram conhecidos ainda na década de 1990. Quando atuam, modificam dramaticamente a distribuição de chuvas na América do Sul, com reflexos extremamente fortes no Brasil.

A seguir, apresento um estudo climático de anos de influência do La Niña, onde pode ser observado o comportamento das temperaturas máximas e mínimas ao longo do ano:

La Niña, máximas. Fonte: Ensei Neto.

 

La Niña, Mínimas. Fonte: Ensei Neto.

 

Observe que existe uma regularidade na chegada das massas polares, com intervalo estimado de 40 a 45 dias, sendo que após a segunda onda, a amplitude térmica se torna muito grande, acima de 12ºC de diferença entre as temperaturas máximas e mínimas.

Em 2021 as duas ondas se confirmaram, talvez com maior intensidade pelo fato do fenômeno La Niña ter ocorrido pelo terceiro ano consecutivo, algo inédito até então.
A estiagem que se seguiu foi uma das maiores já vistas em diversas partes do Brasil, principalmente na faixa onde se localiza a chamada “calha de convergência climática”, compreendendo os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, provocando enorme impacto na produção agrícola, pois é uma área responsável por algo como 70% da produção brasileira.

O ar extremamente seco com altas temperaturas devido à pouca barreira enfrentada pelos raios ultravioletas levou a um efeito até então pouco visto, que foi a perda da capacidade de fecundação das flores dos cafeeiros. O pólen foi definitivamente afetado pelo calor extremo, desnaturando-se e, como resultado, levando a uma baixíssima taxa de fecundação em algumas regiões.
Este gráfico apresenta o que aconteceu no momento da florada na região do Cerrado Mineiro em 2021:

Efeito climático na florada do café. Fonte: Agrobee Tech.

 

Os primeiros lotes da atual safra de café começou a chegar aos armazéns e em boa parte deles está sendo observado uma quantidade muito acima do normal de grãos moca.
Isso representa uma irreparável quebra de produção.

O clima já se mostrava muito seco ainda em fins de junho, quando se esperava uma onde de frio tão intensa quanto a observada em meados de maio, com base estatística de anos sob efeito do La Niña. No entanto, o que se observou foi o gradativo aumento da amplitude térmica, que agora em meados de julho atingiu mais de impressionantes 15ºC em diversas regiões cafeeiras.

Portanto, estamos efetivamente passando por tempos de climas extremos.

E agora?

Quais as estratégias que podem ser adotadas para minimizar o impacto desse cenário de clima extremo?

Como deve se reconfigurar o mercado de café, ante essas mudanças climáticas?

Existem algumas alternativas que têm se mostrado eficazes como a polinização assistida e o controle biológico de pragas e doenças, além de manejo conservacionista nos cafezais, que enfocarei em breve.

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