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Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Com que material eu vou…

O material de seu utensílio pode influenciar no resultado do preparo do café.

29 de outubro de 2020 | 15h15 por Ensei Neto

É muito comum ter dúvida sobre qual método usar para preparar um café, principalmente quando existem tantas possibilidades de escolha.
Vou abordar, agora, um tema pouco explorado: como o material com o qual um utensílio é feito pode afetar a extração de café.

O filtrado e suas variações é um ótimo começo para este tema, pois é o método mais popular de todos, encontrado em praticamente todas as residências e em diversos ambientes profissionais. Neste grupo fazem parte todos aqueles que utilizam um filtro de papel ou de metal, principalmente o aço inoxidável.
Começando pela pioneira Melitta, passando pelas japonesas Hario, Kalita e Kono, a taiwanesa Clever e a norteamericana Chemex, além da brasileira Koar, pode observar que diversos materiais compõem esses utensílios. Cerâmica, aço inoxidável, vidro, porcelana, acrílico e poliestireno são os materiais mais comuns.

Utensílios. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Assim como as pessoas, cada material tem suas características, digamos, afetivas: alguns tem facilidade de capturar calor (ou energia), como se fossem muito volúveis, enquanto outros demoram bastante, como alguém desconfiado de tudo. Tem material que absorve calor e libera lentamente, assim como outro pode reter por muito pouco tempo.
A característica que comanda esse comportamento é conhecida como coeficiente calorífico, sendo que cada material tem o seu. Ele define se um material absorve com facilidade ou não o calor e, como se sabe, o calor, que é uma forma de medir energia. É como o afeto. Tem pessoas muito afetuosas, que se abrem e tornam amigas de infância depois de 5 minutos de conhecidas; outras, somente se tornam seguras em conversar sobre tudo depois de muitos encontros… e olha lá!

E por que a capacidade de reter ou não calor, e caso retenha, consiga liberar rapidamente ou lentamente, é tão importante?

A energia move tudo, faz com que as “coisas”, inclusive reações químicas, aconteçam. Quanto mais energia disponível, mais rapidamente ou de forma mais eficiente, uma reação acontece. O contrário é válido: pouca energia disponível, tudo se torna mais lento.

A temperatura da água ao ser vertida no café torrado e moído tem uma faixa sugerida entre 90ºC e 96ºC como ideal, a depender de onde você estiver, pois há o componente pressão atmosférica que varia de lugar para lugar.
Ao verter a água sobre o pó, o primeiro efeito que se observa é a troca de calor entre o pó, que está a temperatura ambiente, com a água quente, até atingirem a chamada temperatura de equilíbrio, que é aproximadamente a média entre as duas temperaturas, desde que a quantidade seja a mesma (70g de café e 70g de água, por exemplo). Se o material do porta filtro tiver grande capacidade de absorver calor, parte dessa energia é capturada e, como consequência, o pó úmido fica com temperatura mais baixa, tornando a extração do café menos eficiente.
Como alternativa, usualmente escalda-se o porta filtro de materiais que sejam muito espertos para roubar calor como o aço inoxidável. Para quantidades pequenas em seu preparo, utilizar materiais que absorvam pouca energia como o acrílico e os plásticos são mais indicados.

Utensílios e materiais. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Materiais refratários, como a cerâmica e a porcelana, podem liberar a energia capturada aos poucos, a menos que estejam bem aquecidas, o que pode ser feito previamente em algum aquecedor ou utilizando muita água quente, que é atitude pouco ecológica.

É interessante observar que justamente os materiais mais baratos são os melhores no quesito eficiência de extração e atitude amiga do meio ambiente como o acrílico e plásticos porque absorvem pouca energia.

Faça seus testes e comente.

 

 

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