Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Você conhece o criador da sua variedade de café preferida?

Para manter a memória da pesquisa nacional, reconheça os criadores de variedades de café que rendem boas bebidas e exigem menos agrotóxicos

10 de abril de 2019 | 18h04 por Ensei Neto

O Brasil é o principal centro de pesquisas agronômicas na cafeicultura. Isso significa que boa parte do que é aplicado em novas tecnologias de campo – como a distribuição dos cafeeiros numa determinada área, seu manejo em termos de adubação, o controle de pragas e doenças, além de tecnologias e técnicas na colheita e secagem das sementes – é gerado em nosso país.

Existe o Consórcio Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, liderado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias), que coordena as diversas entidades de pesquisa em todo os rincões cafeeiros do Brasil. Por lá, eu tive a oportunidade de servir como revisor ad hoc para pesquisas relacionadas com a qualidade do café.

Antes disso, como comentei em post anterior, o venerado IAC (Instituto Agronômico de Campinas) foi a entidade líder na pesquisa, tanto dos aspectos de cultivo como o de desenvolvimento de variedades. Com o Dr. Alcides de Carvalho chegou-se ao estado da arte em que se encontra a pesquisa desse importante segmento, tendo como sucessores o Dr. Luiz Carlos Fazuoli e o Dr. José Braz Matiello – este do extinto IBC (Instituto Brasileiro do Café).

FOTO: Felipe Rau/Estadão

O trabalho encabeçado pelo Dr. Alcides consistiu na combinação de características genéticas de híbridos e diferentes variedades de arábica. O resultado? Grãos que se expressam em deliciosas bebidas na xícara e, ao mesmo tempo, possuem resistência a algumas das principais doenças do cafeeiro. É uma visão que encerra um sentimento profundo de respeito com a natureza, uma vez que essas plantas podem dispensar parcialmente os caros agrotóxicos, e com os pequenos produtores, que nem sempre têm recursos suficientes para esses tratamentos.

O Dr. Matiello é muito conhecido entre os cafeicultores pelo seu incansável trabalho de disseminação de tecnologias de grande alcance prático, combinado a uma linguagem muito acessível. Quando me iniciei na cafeicultura, meu primeiro livro de cabeceira foi de sua autoria, que considero um dos melhores até hoje publicados.

No momento em que os consumidores começam a se interessar mais por variedades de café, principalmente ao fazer a escolha do grão em uma cafeteria, e nomes como Mundo Novo, Catuaí Vermelho, Bourbon Amarelo e Obatã começam a soar populares, é fundamental que também seus criadores possam ter o devido reconhecimento. Afinal, o desenvolvimento de uma variedade é uma longa jornada – a planta do cafeeiro se torna produtiva comercialmente, em média, quatro anos após o plantio, e muitas safras devem ser acompanhadas para se saber de seu comportamento.

É como ser pai com idade de avô.

Lote especial Matiello. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

A variedade Acauã, que tem o toque genial do Dr. Matiello, é resultado do cruzamento da variedade Mundo Novo com o Sarchimor, que é um híbrido que contribui com um pouco da genética do robusta, conferindo resistência às doenças. É uma planta de porte médio baixo e suas frutas são vermelhas quando maduras. Seu ciclo é considerado médio a tardio, ou seja, mais longo que, por exemplo, do Mundo Novo.

Considero muito relevante o fato de um lote especial de café da variedade Acauã recentemente lançado tenha a assinatura do Dr. Matiello, seu criador, principalmente num cenário onde figuras de mídias sociais são quem tem mais exposição ao público consumidor. Esse lote do Café Orfeu, que foi colhido no Talhão Pomar da Fazenda Sertãozinho, em Botelhos (MG), apresenta de forma inédita criador e criatura para que os coffee lovers de plantão possam conhecer mais sobre pessoas que ajudam a fazer o mundo mais cafeinadamente feliz.

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