Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Elos invisíveis

A cadeia do café tem profissionais que são pouco conhecidos do público, mas têm papel muito importante

24 de maio de 2020 | 12h53 por Ensei Neto

O café definitivamente se tornou a bebida da moda nestes tempos pandêmicos, pois, apesar das restrições impostas pelo distanciamento social em praticamente todo o planeta, as torrefações têm trabalhado a todo vapor, garantindo tanto nas prateleiras como na forma de delivery o estoque de todos.

Quando nossa casa se tornou parte do mundo profissional, as pausas entre reuniões virtuais ou telefones ou dedilhados nos teclados são, em sua grande maioria, dedicadas ao ritual do preparo do café. Independente de estar em trabalho ou não, poder preparar e beber o café ajuda a mudar um pouco a rotina doméstica.

Neste dia dedicado ao café, gostaria de mencionar grupos de profissionais que são invisíveis aos consumidores, porque a interface mais próxima são os baristas e proprietários de cafeterias.

Quando se fala em café, em qualquer parte do mundo, o primeiro nome que surge no imaginário das pessoas é Brasil, pois é conhecido como o maior produtor mundial desde o ano de 1890.

Essa liderança na produção e sua constante busca pela qualidade acontece porque desde o período imperial foram instalados centros de pesquisa de excelência, que logo ganharam o reconhecimento mundial.

O IAC – Instituto Agronômico de Campinas, fundado em 1887, é o berço da pesquisa cafeeira no Brasil, desde a que se dedica ao desenvolvimento genético e que foi responsável por variedades emblemáticas como Mundo Novo, Catuaí e Obatã, aos aspectos de cuidados das lavouras.

Fazem parte das instituições de pesquisa de ponta no Brasil as Universidades de Viçosa (UFV) e de Lavras (UFLA), o INCAPER, do Espírito Santo, o IAPAR, do Paraná, que colaboram diretamente no Consórcio Brasileiro de Pesquisa Cafeeira coordenado pela EMBRAPA.

Junto dos pesquisadores, que garantem a vanguarda tecnológica dos cafezais, existe uma comunidade incrível de extensionistas que fazem chegar aos produtores, principalmente os pequenos, todo o conhecimento produzido para devida aplicação.

Destes órgãos, devem ser destacados a EMATER de Minas Gerais, que inclusive conduz o mais abrangente e democrático sistema de certificação de produção de café do mercado, EMATER de Rondônia, o INCAPER/ES, EMATER do Paraná e a CATI de São Paulo.

Em boa parte, a melhora da qualidade dos cafés produzidos no Brasil, tanto arábicas quanto o conilon, é devida a esses profissionais.

Treinamento de degustadores. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

Outro elo invisível ao consumidor é o grupo de profissionais que cuida do controle de qualidade dos grãos ao longo da cadeia, tanto no momento da armazenagem, como na comercialização, na indústria de torrefação e até junto ao varejo: são os classificadores ou degustadores.

Num “oceano” de cafés produzidos em diferentes pontos do nosso país, do Paraná ao Ceará, de Pernambuco a Rondônia, volume que supera com muita folga milhões de toneladas, a classificação, seleção e direcionamento dos diferentes padrões de qualidade só é possível com esses profissionais, em grande parte em trabalho solitário.

Apesar de alguns já se tornarem conhecidos de consumidores por estarem em grandes centros, os mestres de torra são responsáveis pela mágica da transformação dos grãos crus em torrados, garantindo sabores e aromas de sua marca preferida. Geralmente têm seu dia a dia num relacionamento apenas com o torrador e seus inúmeros ciclos com cafés de origem única, blends ou microlotes. A torra do café exige atenção total durante todo o processo.

A cadeia produtiva do café é enorme e emprega muita gente. Portanto, são muitos trabalhando para que em sua xícara não falte café, mesmo que você não saiba quem e onde, pois alguns podem estar em localidades muito distantes de sua casa.

Tenha certeza de que, mesmo que esses profissionais não sejam tão visíveis a você porque não estão em seu convívio, todos continuam sua missão.

Ainda bem, não é mesmo?

Tags:

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ficou com água na boca?