Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Eras de gelo

As geadas têm papel de importante divisor de momentos na história da cafeicultura.

24 de julho de 2021 | 16h49 por Ensei Neto

A cafeicultura do Brasil tem a particularidade de se esparramar por grande faixa de latitude, desde 4º Sul até além da linha do Trópico de Capricórnio, que passa junto à cidade de São Paulo.

Por conveniência política, quando parte da família imperial portuguesa aportou no Brasil em 1808, houve um deslocamento natural das áreas de produção agrícola. Por exemplo, o café era cultivado predominantemente nos Estados do Nordeste como Ceará e Pernambuco, até então.

Ao se deslocar para as novas áreas de cultivo como o Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, o clima mais ameno das montanhas ao longo da Serra do Mar e seus braços como a Serra da Mantiqueira e a Serra do Caparaó redesenhou o mapa da cafeicultura brasileira no Século XIX. Essa distribuição pelas montanhas, que coincidentemente localizam-se onde o clima é denominado de Subtropical de Altitude, segue lógica perfeita para que o desenvolvimento dos cafeeiros seja sempre exuberante, aproveitando um efeito não que existe em seu local original, a Etiópia: as 4 estações do ano.

Tal qual ocorreu no planeta Terra, quando a Era Glacial estabeleceu um marco na Evolução, também pode-se fazer um paralelo com o que acontece na cafeicultura.

A geada considerada a mais marcante aconteceu em 1975, provocando perda de 90% das lavouras cafeeiras do Paraná, além de reflexos na Alta Paulista, região de Garça, Alta Sorocabana, onde desponta Piraju, e parte da Alta Mogiana e Sul de Minas.
Cafezais arrasados, devido à chamada geada negra, que é quando ventos muito frios atravessam as lavouras por longo tempo, matando literalmente todas as plantas.

É muito impressionante o seu rastro de destruição.

Esse quadro desolador fez com que diversos cafeicultores deixassem essas regiões e seguissem para locais com menor chance de ocorrer geadas, abrindo uma fronteira que em pouco tempo seria conhecida pela conjunção de tecnologia, produtividade e qualidade de sua cafeicultura: o Cerrado Mineiro.

Naquela época, as terras do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro eram tidas como adequadas apenas para os rebanhos de gado e, por isso, tinham valor muito menor que do Norte do Paraná, conhecida como “terra roxa” e muito procurada devido à sua fertilidade. Foi o recomeço para muitas famílias que tinham a cafeicultura como atividade de vida.

Geada no Alto Paranaíba, MG. Foto: Antônio Sérgio Souza.

Em 1994 aconteceu outra geada emblemática, coincidentemente quando os preços do café experimentavam recuperação depois de amargarem cotações muito baixas em 1990 e 1991.
Esse cenário de recuperação de preços fez com que diversos países não tradicionais na cafeicultura iniciassem o plantio como forma de estimular suas economias, caso do Vietnan.

A forte geada que veio em 1994, que novamente arrasou a cafeicultura do Norte do Paraná e parte do Oeste de São Paulo, estimulou o plantio em áreas ainda mais ao norte do Brasil, como o Oeste da Bahia, e a expansão do robusta em Rondônia. Sem dúvida, o efeito de maior impacto foi o rápido crescimento da produção de robusta no Vietnan, que em poucos anos desbancou a Colômbia como segundo maior produtor mundial de café.

Tal foi o tamanho do impacto dessa geada, pois o Brasil respondia por mais de 33% da produção mundial de café, que Howard Schultz, então presidente da mega rede de cafeterias Starbucks menciona sua preocupação com os desdobramentos no mercado em seu livro “Dedique-se de coração”.

A geada destes últimos dias nos cafezais brasileiros foi bastante severa, cujos efeitos levam ainda alguns dias para serem efetivamente contabilizados.
O maior problema reside no fato de que foi a primeira vez que ocorreu por dois anos seguidos o evento La Niña, levando os níveis dos reservatórios da Região Sudeste a patamares muito baixo. Como resultado, hoje existe real dificuldade na geração de energia elétrica (basta conferir a bandeira vermelha que continua penalizando as contas de energia de cada residência, por exemplo) e a escassez no abastecimento de água, com discreto racionamento em alguns lugares.
A seca prolongada tem efeito muito danoso e, pior, que pode se prolongar, algo comum após uma forte geada.

Geada no Cerrado Mineiro. Foto: Antônio Sérgio Souza.

As poucas origens produtoras que ficaram ao largo do frio foram as áreas do Norte do Espírito Santo, onde o conilon é o principal cultivo, a Bahia e sua Chapada Diamantina, e os cafezais da Amazônia.

O quadro é preocupante para toda a cadeia do café, pois sem os apreciados grãos, a cadeia deixa de fazer sentido.

Para o produtor é mais uma prova de resiliência e fé para reconstruir o que ficou após o estrago. Aos que não tiveram essa prova, pode ser a oportunidade de alcançarem outros mercados e de expandir sua produção.
De qualquer forma, é um momento que, se você gosta de café, apoiar os produtores e todos que fazem parte dessa incrível cadeia é fundamental.

Continuar é preciso.

 

 

 

 

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