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Fake news do café

Fake news do café têm trazido confusão entre qualidade e fraude

18 de fevereiro de 2020 | 00h51 por Ensei Neto

Como uma pandemia, as “fake news” são esparramadas pelas mídias sociais por pessoas que, em sua maioria das vezes, são crédulas com todo o tipo de notícia que circula pela internet, criando desconforto e confusão.

Nas últimas semanas têm circulado algumas “fake news” sobre o café, fazendo com que muitas pessoas viessem me perguntar até que ponto eram verdades…

Um vídeo de um suposto motorista de caminhão relata que empresas misturam sangue de boi no café torrado à vácuo. Apesar de muito absurda essa história, rapidamente ganhou compartilhamentos em todo país.

A ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café) emitiu uma nota de esclarecimento onde explica que nosso País tem critérios rigorosos quanto à pureza da matéria prima empregada nas torrefações certificadas.

As análises de controle são feitas por entidades como o Instituto de Tecnologia de Alimentos, o ITAL, de Campinas, por exemplo, todas de excelente reputação no mercado.

Utilizar substâncias que são estranhas ao café é considerado fraude, devendo ser penalizado criminalmente quem faz essa prática.

Outro vídeo, que começou a circular tomando carona com o anterior, demonstra um suposto teste para se identificar um “café bom” de um “café ruim”, empregando apenas água.

Como todo típico vídeo de “fake news”, o narrador não se identifica, dá informações muito vagas e não é possível saber o que ele realmente está utilizando.

Simplesmente despejar o pó de café sobre água não significa nada. Depende da temperatura da água (será que ambas estariam com a mesma temperatura?) e da moagem do café, por exemplo.

Parece um truque de mágica… e não passa de um truque barato!

Muitos órgãos de pesquisa vêm tentando desenvolver equipamentos para determinação da qualidade do café que bebemos, desde o “nariz eletrônico” à “língua eletrônica”, porém todos com sucesso muito limitado.

Como toda bebida, a avaliação sensorial, que é conhecida por “cupping” ou degustação, é realizada por profissionais altamente treinados para perceber as sutis diferenças entre as bebidas, identificando tanto os excelentes atributos, como uma acidez licorosa ou uma nota de sabor que lembre frutas vermelhas, quanto os defeitos, como a sempre indesejável adstringência, que caracteriza cafés de qualidade mediana e inferior.

Portanto, identificar a qualidade do café pede equipamentos e treinamento. E “água mágica”, por ora, é artigo que ainda não está à disposição…

Fraude com cascas e paus. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

O último vídeo que recebi, típico “fake news”, é um que mostra a torra de um suposto café de baixa qualidade e que é atribuída à grande indústria.

A mistura feita continha milho pipoca (pasmem!) e que, obviamente, começou a estourar com a alta temperatura dentro do torrador, revelando um som de “pop” um tanto diferente do que se ouve durante a torra do café. Milho pipoca é algo caríssimo e, por isso, não seria misturado num produto mais barato!

Tem sido comum ver baristas que postam fotos de café com impurezas como cascas, paus e até pedras para mostrar a diferença entre um café de baixa qualidade com um especial. No entanto, novamente está sendo feita confusão entre qualidade e fraude (sim, mais uma vez a fraude dando as caras!).

Mesmo que seja algo para fins de ilustração, não se deve cometer um erro como esse, que é confundir padrões de qualidade com o que a legislação não permite.

Elementos estranhos ao café são considerados elementos de fraude de produto, sejam cascas de café, paus e até mesmo o milho.

Fraude é crime!

As grandes empresas, em sua maior parte, participam de programas de certificação de processos como o da Rainforest Alliance, justamente para atender rigorosos protocolos internacionais, o que explica porque não cometem esse deslize. Ao mesmo tempo, entendendo a virtuosa fase de crescimento do mercado, têm empregado especialistas de renome, baristas premiados em competições nacionais e produtores de café reconhecidos pelo seu trabalho com a qualidade.

Portanto, confie nos seus sentidos e continue a beber excelentes cafés de boa procedência, que identifiquem os produtores e suas fazendas ou façam parte de  programas que atestem boas práticas de fabricação.

Observe que as “fake news” só divulgam produtos fraudados e, por isso, são “bad trip”…

 

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