Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Fuja do óbvio com uma Coffee Beer!

Que tal experimentar uma cerveja ao estilo Brazilian Coffee Beer?

03 de outubro de 2020 | 11h59 por Ensei Neto

A cerveja é a mais versátil das bebidas alcoólicas fermentadas, permitindo possibilidades quase infinitas de combinações com ingredientes locais ou sazonais, sem mencionar os diferentes estilos.
O café, em geral, ficou associado às cervejas de estilo mais parrudo, intensas, quase sempre com ingredientes com ponto de torra mais escuro, o que seria, digamos assim, esperado.

O mercado das cervejas artesanais tem apresentado produtos, que podemos dizer, pouco óbvios, resultado das pesquisas e da criatividade dos mestres cervejeiros. Para entender melhor o que está se passando, conversei com a sommelière de cervejas Bia Amorim, que também é a editora do delicioso e altamente recomendado Farofa Magazine.

Bia, em quais estilos de cerveja o café tem sido mais empregado?
O café, atualmente, vem ganhando espaço em estilos menos óbvios.
Quando surgiram as primeiras cervejas, eram quase sempre Stout ou Porter, pois fazem uma ótima combinação por terem elementos sensoriais muito parecidos com os cafés torrados como as notas de chocolate, caramelo e cereais tostados. Amber Ale, IPA, Brown Ale, Kolsch, Vienna lager, Schwarzbier, Dopplebock e Belgian Blond são exemplos de estilos já foram feitos.
Agora, as cervejas podem usar seu próprio estilo, a “Coffee Beer”. Você escolhe uma base e ao adicionar o café, aquele elemento dá nome ao estilo e entra nessa categoria “cervejas com café.


Onde deve ter havido a primeira inclusão do café numa receita cervejeira?
A Dodfish Head é uma famosa cervejaria americana e parece ter sido uma das primeiras a utilizar comercialmente café em suas receitas nesta era atual de cervejas artesanais. Isso aconteceu por volta dos anos 90, segundo algumas fontes.
A Breakfast Stout ( uma Double Chocolate Coffee Oatmeal Stout), da cultuada cervejaria americana Founders, também trouxe muita curiosidade ao mercado e chegou ao Brasil como um ícone da nova cultura cervejeira. Em 2001 a canadense Dieu Du Ciel lança a Péché Mortel, intensa e com os dizeres “aprecie com calma”. Em 2003 a Founders lança um projeto de cervejas de guarda e a KBS (Kentucky Breakfast Stout) representa a evolução da sua cerveja com café, contando com adição de chocolate e maturação em barris de bourbon.


E como é a história entre café e cerveja no Brasil?
Em 2008, a cervejaria Colorado lança a Demoiselle, de estilo Porter muito agradável e fácil de beber, que trazia toda a carga histórica dos cafés da Alta Mogiana e as fazendas da família de Santos Dummont.  Em 2014 foi a vez da Morada Cia Etílica, de Curitiba, lançar uma cerveja clara, elegante e leve, com cafés especiais, a Hop Arabica.
Em 2015 a cervejaria Blondine lança a Volcano, uma Coffee Stout que parece um café expresso, escura, densa e intensa.
Atualmente, o destaque está por conta da cervejaria mineira Zalaz, com suas impressionantes criações usando os cafés de cultivo e torra próprios, além de ousar em estilos e blends com outros ingredientes.

Definitivamente, hoje, incontáveis cervejarias têm no café um importante ingrediente para atrair fãs com seus sabores e nuances.

Bia Amorim. Foto: Divulgação.


Como o café pode ser empregado nas receitas de cerveja?
O café é um ingrediente bastante versátil!
Podemos usar desde as suas flores secas aos grãos verdes, do café torrado aos diferentes tipos de extração.
Também podemos escolher o momento em que o café em suas diferentes formas vai ser adicionado ao processo. Por exemplo, pode ser adicionado na fase de fermentação, na maturação ou no momento do envase. Todas as variáveis dependem de qual efeito sensorial eu quero causar.

 

Fugindo do óbvio, o que não seria uma aplicação óbvia do café na cerveja?
Eu gostaria de ver uma cerveja bastante leve e refrescante com flores de café!
Acredito que uma Saison possa trazer nuances curiosas, assim como uma Red Flanders Ale, com sua complexidade de fermentação e maturação em barricas de madeira ou até mesmo uma Pumpkin Ale, cerveja com presença marcante de abóbora.
É preciso correr alguns riscos e colocar o paladar à prova. Existem várias dimensões a serem exploradas ainda.

 

O que sugere para quem deseja explorar mais esse novo estilo?
Experimentem estas:

Zalaz Amantik Coffea, uma estilo Brazilian Wilde Ale com café, de fermentação mista e café de produção da própria fazenda. Tem 4,8% de teor alcoólico.

Oca Araí Imperial Stout com côco, café barrel aged e cumaru. Com 10,5% de teor alcoólico, tem café maturado em barrica de amburana.

Dádiva True 2 Coffee Russian Imperial Stout com carvalho americano e café. Com 10,0% de teor alcoólico, utiliza blend de café da Fazenda Ambiental Fortaleza.

5 Elementos BG Dark Pirate Coffee Edition, Russian Imperal Stout com café barrel aged. Cerveja parruda com 12% de teor alcoólico e 80 ibu, recebe café maturado em barricas de rum da Franck’s Ultra Coffee.

 

Tags:

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ficou com água na boca?

Tendências