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Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

O clima e CONCs – Cafés e Origens Não Convencionais

Conheça os trabalhos da pesquisa e dos produtores para enfrentar as mudanças climáticas.

27 de abril de 2021 | 17h39 por Ensei Neto

As lavouras do café fizeram caminhos que mostram como a geografia política do Brasil se moldou ao longo da história.

De início, nos idos de 1727, os principais locais de produção ficavam no Norte e Nordeste, uma vez que as primeiras sementes encontraram solo fértil no Pará, vindo a Guiana Francesa, de acordo com a romântica versão que envolve o Palheta. Naquela época de Brasil Colônia e era lógico esperar que toda a produção agrícola gravitasse próximo à capital, na época, Salvador, na Bahia.

Ao se fazer a transferência da capital da Colônia de Salvador para o Rio de Janeiro, também as regiões próximas se beneficiaram das influências do novo centro do poder, que ganhou maior importância com a chegada da família imperial em fuga do exército de Napoleão, em 1808.
O Vale do Parnaíba fluminense, simplesmente conhecido como O Vale, foi a mais importante origem cafeeira até o final do Século XIX, quando as novas áreas de plantio no Estado de São Paulo e seu plano de expansão via ferrovias se iniciou.

Daí em frente, já se sabe: expansão e diminuição no Paraná, origens que tiveram seu auge e desapareceram em São Paulo, o crescimento da cafeicultura em Minas Gerais e, finalmente, a entrada em regiões pouco exploradas como Goiás, o Oeste da Bahia e a Amazônia com seus robustas e conilon.

O clima molda a geografia da agricultura em todo o mundo. O cafeeiro, no caso do arabica, tem seu berço botânico na Etiópia, mas seu cultivo foi feito de forma sistemática no Iemên, que fica na Península Arábica e, por isso, serviu de sugestão ao nome da espécie, ficando Coffea arabica.

As mudanças climáticas passaram a ser observadas com maior atenção a partir dos anos 1990, quando os fenômenos El Niño e La Niña se tornaram muito importantes, principalmente porque afetam diretamente à produção agrícola da América do Sul.

Existem evidências de que essa espécie Coffea arabica, por enquanto a mais plantada no planeta, é de clima ameno, porém não necessariamente de grandes altitudes. O que importa para um excelente desenvolvimento do ciclo de seus frutos é a variação de insolação ao longo do ano, conjugada com o comportamento preciso da amplitude térmica, que idealmente não deve ser excessivamente elástica, nem tão pouco de faixa muito estreita.
Nesse ponto, entram os estudos de sombreamento das lavouras, que têm técnicas diferentes para cada região.

Origens mais próximas à linha do Equador, como na Chapada Diamantina, BA, em Taquaritinga do Norte, PE, e Maciço do Baturité, CE, o sombreamento se faz obrigatório porque a incidência dos raios solares é muito intensa durante praticamente todo o ano. É por isso que experimentar cafés produzidos em algumas dessas origens ainda não tão convencionais quanto às de Minas Gerais e São Paulo, pode ser uma experiência sensorial das melhores!

Lavoura com sombreamento tradicional, Chapada Diamantina. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Na faixa intermediária de latitude, dos 16ºSul e 20ºSul, o sombreamento deixa de ser necessário, pois a distribuição de luz durante o ano é tem boa distribuição, reforçada pelas áreas elevadas do cerrado. Há anos atrás, foram feitos os primeiros experimentos de sombreamento por projeção, conceito genial posto em prática pelo agrônomo e ex-professor da UNESP Evanildo Peres. Na região Noroeste de Minas Gerais, divisa com Cristalina, Goiás, onde a altitude média é de 1.000m, o efeito do sombreamento das árvores de teka foi impressionante, baixando em média 4ºC nos cafezais. Como resultado, ciclo mais longo e bebidas com maior acidez e corpo.

Cafezal com sombreamento por projeção. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

Seguindo rumo ao sul, para a linha do Trópico de Capricórnio, as quatro estações do ano começam a ficar bem definidas. Nessas áreas, como o Paraná e a Sorocabana, SP, as altitudes podem ser mais baixas para mesmo assim as lavouras produzirem lotes surpreendentes!
A Fazenda Califórnia, em Santo Antônio da Platina, PR, por exemplo tem áreas de altitudes menores que 500m, cujos lotes geralmente apresentam alta acidez.

Dentre as alternativas para contornar a mudança climática, os setores de pesquisa têm desenvolvido trabalhos para encontrar variedades com melhor capacidade produtiva e que tenham maior resistência a estiagens mais longas, mantendo um bom resultado sensorial, que será tema do próximo post.
Outra linha de trabalho tem sido o de procurar integrar as lavouras de café com o ambiente natural, também chamado de Território ou Terroir, em francês. Assim como a cafeicultura orgânica, algumas vertentes surgiram nos últimos anos, como a agroflorestal, porém sempre como variações sutis. Talvez a mais emblemática tenha sido a Biodinâmica, que emprega estudos sobre o melhor entendimento do solo, componentes naturais e outros aspectos da Natureza.

Na produção de vinhos, já há um bom grupo de representantes, enquanto no café a Fazenda Camocim, de Pedra Azul, ES, tem o trabalho consolidado. Localizada numa área privilegiada junto a uma ramificação da Serra do Caparaó, a fazenda é certificada como biodinâmica desde 2008 e seus lotes de café vem conseguindo espaço no mercado brasileiro e internacional. Segundo Henrique Sloper, seu proprietário, a decisão por optar pelo biodinâmico foi também financeira, pois ele observou uma desaceleração nos investimentos ao longo dos anos, ante a maior procura e, portanto, valorização do produto.

Fazenda Camocim. Preparo biodinâmico. Foto: Divulgação.

Os produtores estão procurando alternativas para garantir que a qualidade do café continue das melhores, mesmo com os exageros climáticos recentes. Vale a penas conhecer esses cafés, produzidos sob perspectiva ecológica, de perenidade e consciência ambiental, pilares que estão moldando a nova economia.

 

MAIS CAFEÍNA

A Università del Caffè Brazil, iniciativa educacional da torrefação italiana illycaffè, lançou a 11ª Edição dos Cadernos da Universidade do Café, que aborda temas ligados à produção denominada de Agricultura Virtuosa, créditos de carbono e as tendências da economia ética. O documento tem coordenação do PENSA, ligados à Faculdade de Economia e Administração da USP, com artigos são de autoria de diversos professores e pesquisadores.
Você pode fazer o download deste documento por meio deste link:

http://universidadedocafe.com/wp-content/uploads/2021/04/Cadernos-UdC-2021-1.pdf

 

 

 

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