Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

O Dia do Café dos novos tempos

Saiba o que mudou no mundo do café em tempos de retomada.

01 de outubro de 2021 | 02h41 por Ensei Neto

Os últimos 21 meses marcaram definitivamente o início de um novo tempo, com mudanças de grande impacto em toda a cadeia produtiva do café.

A pandemia provocou uma dramática mudança no modelo de consumo, quando mais da metade das pessoas isolou-se em suas casas por decorrência do distanciamento social. Com o crescente número de casos de covid19, os serviços de entrega se tornaram cada vez mais acionados juntamente com os pedidos feitos via ecommerce.

Com mais tempo em casa, as pessoas redescobriram atividades que eram tão comuns às nossas mães e avós como o simples ato de cozinhar. Se a cozinha vinha ganhando maior importância como um, digamos, espaço gourmet (acho sempre muito estranho como associam a palavra “gourmet” às outras que nem sempre fazem sentido…), durante esse novo tempo se tornou definitivamente o lugar onde tudo de bom acontece.

Cozinhar é explorar os sabores e aromas, é criar vínculo com os alimentos ao tentar compreender sua natureza e, assim, extrair deles o seu melhor.

Com o café não foi diferente.
Ficar em casa foi o motivo para que o consumo e a exploração de um mundo até então desconhecido por muitas pessoas, que é o da preparação do café, se tornasse uma viagem sem volta.

Nunca tantos experimentaram diferentes cafés em tão pouco tempo!
As vendas de utensílios como balanças, chaleiras, xícaras, porta filtros e moinhos, entre outros, tiveram vendas inesperadamente massivas.

Métodos de preparo de café. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal

Por outro lado, as gigantes do mercado souberam compreender rapidamente as novas condições do mercado, literalmente entrando nas casas de cada consumidor cativo. A Nespresso, da gigante suíça Nestlé, acelerou programa de lançamentos de suas cápsulas, incluindo, no Brasil, o do sistema Vertuo, que utiliza um genial sistema de centrifugação, garantindo o que se pode chamar de “extração extrema” tal sua eficiência. Por exemplo, seu mais recente produto é uma cápsula que extraem supreendentes 525ml, equivalentes a um jarro de café.

A cafeteria doméstica, incluindo até então uma impensável microtorrefação, é o símbolo da 4ª Onda do Café.

Neste cenário, uma figura que vem ganhando projeção é o coffeelover, consumidor simplesmente apaixonado pelo café. Num relacionamento com lances de alto nível de envolvimento, esse consumidor é geralmente estudioso, muitos com excelente formação educacional, promovendo o consumo mais exigente e consciente do café.
Um dos desdobramentos mais interessantes e que demonstra a força desse consumidor é o surgimento da chamada compra coletiva, que assume importante papel ao impulsionar o comércio de microtorrefações, distribuidores e indústrias de utensílios.

Cappuccinos. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Como contrapeso para este cenário, aconteceu o longo e doloroso período de fechamento do comércio, que afetou fortemente o setor de hospitalidade, que compreende serviços como o de hotelaria, restauração (a função primordial dos restaurantes), bares e as cafeterias. Depois da impiedosa segunda onda da pandemia, muitos estabelecimentos fecharam as portas definitivamente, abrindo enorme ferida que somente agora, com a gradativa retomada pós vacinação, começa a ser melhor contabilizada.

Os espaços tiveram de ser repensados, porque os novos tempos pedem locais arejados e amplos o suficiente para que ainda se mantenha o distanciamento entre as pessoas. Neste ponto, o mercado soube reagir rapidamente e um dos fenômenos que saltou aos olhos foi a abertura das chamadas micro cafeterias, de serviço enxuto e esperto com mínimo contato, combinado a preços justos e camaradas.
Essas franquias, como a The Coffee, a pioneira desse novo segmento, se espalharam país afora para levar o conceito de que o café é sempre um prazer acessível e descomplicado.

As cafeterias em seu formato mais clássico passaram a buscar novos produtos e serviços para melhorar seu faturamento, premidas pelo aumento dos custos e do passivo que se formou no período de reclusão.
Numa ousada proposta, a Nescafé Profesional, dedicada ao trabalho com cafeterias e restaurantes, lançou no Brasil o programa Roastelier, que tem a proposta de levar uma máquina de torra compacta para esses locais, permitindo que torras frescas sejam executadas à frente dos clientes.
O seu grande diferencial é o fato de ter em sua linha 3 blends, dos quais dois de outros países produtores de café, a Colômbia e a Etiópia, e o terceiro, do Brasil.
Definitivamente, este projeto quebra barreiras de comercialização de café de diferentes origens em nosso país, facilitando o seu acesso aos consumidores em geral.

Café etíope em torra fresca. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

A indústria brasileira, nesse meio tempo, manteve-se muito ativa.
Num intenso processo de busca por origens brasileiras pouco conhecidas, a brasileira 3 Corações lançou ousada linha de produto denominada Tribos, composta por grãos da espécie Coffea canephora, basicamente da espécie Robusta, cultivados na região amazônica por comunidades indígenas.

O clima foi tão conturbado quanto o dia a dia durante o período pandêmico, um dos reflexos foi a quebra da produção brasileira de café arábica, agravada neste ano por uma assustadora combinação de longos períodos de seca e alta temperaturas, entremeados por correntes congelantes que formaram geadas em diversas regiões cafeeiras. Certamente haverá uma menor oferta de café arábica, o que se reflete no aumento de preços já observados na cadeia produtiva e que, fatalmente, chegará à xícara do consumidor.

Olhando para o lado do produtor, uma ainda silenciosa revolução vem acontecendo na faixa que começa no Norte do Espírito Santo e segue até o Extremo Sul da Bahia: a impressionante expansão do Conilon. Produtores com foco na produção de café de alta qualidade investem em aumento de produtividade e nos processos que garantam sabores antes impensáveis no conilon brasileiro. Municípios como Linhares, no Espírito Santo, e Teixeira de Freitas, na Bahia, experimentam um especial período de prosperidade, prenúncio de consolidação de novos polos de produção de café.

Apesar da crença estabelecida por um certo equívoco com a composição química aparentemente mais pobre do conilon em relação às variedades da prestigiada espécie arábica, recentes trabalhos desenvolvidos por diversos produtores alinhados com importantes instituições, como o respeitado INCAPER – Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural,  e um conjunto de empresas da iniciativa privada indicam um caminho muito promissor futuro dessa cafeicultura no cenário brasileiro e internacional.

Produtor de conilon especial. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Assim como aconteceu com os arábicas brasileiros, que se valorizaram a partir do movimento dos cafés especiais e concursos de qualidade inicialmente capitaneados pela italiana illycaffè, a melhora da qualidade do conilon e robustas brasileiros deve estabelecer um novo cenário.

Ou seja, podemos ter certeza de que não faltarão xícaras de café com muito aroma e sabor.

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