Paladar

Um café para dividir

Histórias e experiências sobre o café

Origem, pegadas e transparência

Identificar e apresentar os cafeicultores é forma de valorizar o seu trabalho junto ao consumidor

02 de julho de 2019 | 00h27 por Ensei Neto

Você já deve ter se dado conta que boa parte dos produtos, como bebidas e comidas industrializadas, vêm com muitas informações em seus rótulos, além de selos de garantia, por exemplo. Parte das informações nos rótulos são obrigatórias pela legislação brasileira, principalmente sobre data de fabricação ou validade do produto, informações nutricionais e composição.

Produtos provenientes de grandes empresas têm como pressuposto que sua escala de produção é gigantesca, o que implica num volume de matéria-prima e, portanto, numa cadeia de fornecedores de enorme proporção. É em razão dessa grande escala que as grandes indústrias trabalham com produtos de qualidade no máximo mediana para garantir um padrão estável.

À medida que o mercado se refina, principalmente quando existe um diálogo mais direto com os novos consumidores, surgem brechas importantes para que diferentes modelos de negócios sejam praticados.

Cafés e seus produtores identificados. Fotos: Ensei Neto/Arquivo pessoal.

Era o início dos anos 2.000 quando vi no Japão, numa rede de supermercados, hortaliças com fotografias e endereços de seus produtores, num perfeito modelo de comércio com transparência, ou seja, quando o consumidor tem informações sobre quem efetivamente produziu. Com o predomínio de sistemas de certificação da cadeia produtiva, que trabalham com informações do “como foi feito” e o “quem fez”, as atividades de campo como a quantidade e datas de aplicação de adubos ou da capina passaram a ser registradas pelos produtores.

Esse conjunto de anotações permite que todas as atividades sejam verificadas por essas empresas como se fossem as “pegadas” da caminhada que um lote de café fez. Como se vê, boa parte da “lição de casa” pertence ao produtor que, fica sempre com a incerteza dos preços. Todo o restante da cadeia comercial trabalha com as chamadas margens de ganho, garantindo seu lucro da operação.

Algumas marcas de café, principalmente as de grande e médio porte, têm produtos que estampam em suas embalagens selos de certificadoras que garantem tão somente a forma como aquele café foi produzido. Em contrapartida, pequenas torrefações, com a finalidade de se diferenciarem no mercado, procuram fazer o trabalho de relacionamento mais direto com os cafeicultores, contando suas histórias, comentando sobre a variedade escolhida e até detalhes de sua produção.

A questão da qualidade é muito mais delicada, ficando o buraco bem mais embaixo, pois depende ainda de como e quando os grãos foram torrados e, por fim, da forma de preparar a bebida. No entanto, esse trabalho ao qual o cafeicultor se dedica, principalmente quando se trata de um lote de melhor qualidade, deve ter o devido reconhecimento pelo mercado, pelo consumidor.

Cada lote de café é sempre muito especial porque é o resultado de uma combinação de esforços ao longo de mais de nove meses, envolvendo múltiplas atividades desde a preparação do cafezal para a florada, o desenvolvimento das frutas desde seu início até ficarem maduras e, finalmente, a colheita com uma secagem bem feita. É um parto anual!

Diversas iniciativas estão em prática no mercado para valorizar o cafeicultor, apresentando sua história, seu sítio e até o seu sorriso. Existem casos em que o nome do produtor e da fazenda estão presentes, outras em que há uma descrição do perfil sensorial e uma ilustração criada exclusivamente para o lote (@amikacoffee, perfil no Instagram), até um microlote premiado com direito a um código QR do Cerrado Mineiro (www.cafeisole.com.br) e a bela embalagem da Dengo com a foto de cada produtor estampada (www.dengo.com).

Procure por produtos de torrefações que apresentem e falem dos cafeicultores, pois é assim que se pode valorizar seus esforços. É como abrir as portas para um amigo que merece ter seu trabalho celebrado.

Que tal celebrar mais?

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