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Saiba como as abelhas podem ajudar na produção de excelentes cafés

10 de abril de 2021 | 11h05 por Ensei Neto

O compromisso com a preservação do meio ambiente é um tema que está definitivamente enraizado em boa parte das pessoas, dos governos e das empresas. O termo ESG, que você verá com maior frequência em noticiários, corresponde às iniciais de ecologia, sustentabilidade e governança, princípio ético de responsabilidade assumida para uma convivência saudável entre as pessoas, a natureza e a condução de uma sociedade.
Existe uma crescente preocupação dos produtores rurais com a preservação do meio ambiente, procurando tecnologias e técnicas que permitam uma produção mais limpa, digamos assim, e com menor geração de resíduos não reaproveitáveis.

Uma das tendências é o emprego de abelhas para a polinização das flores dos cafezais.

Como você sabe, existem duas espécies de cafeeiros que são as principais em termos comerciais: a Coffea arabica,representada pelas variedades como o Bourbon e Mundo Novo, e a Coffea canephora, com o Conilon.
Ambas se diferenciam pela sua genética, sendo a arabica mais geniosa devido ao maior número de cromossomos, que é o dobro do canephora. As flores das plantas do arabica podem realizar o autofecundamento, ou seja, não precisam de companhia para garantir novas frutas. Já as flores do canephora não dispensam a ajuda de terceiros, pois sua fecundação necessariamente precisa ocorrer entre flores de duas plantas.

Flor fecundada de Mundo Novo. Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

A partir dessa observação, fica claro que Conilon e Robusta, dois dos principais representantes da canephora, podem gerar muito mais combinações e, portanto, linhagens que podem vir a ser mais viáveis e interessantes para o mercado. No entanto, esses resultados só ocorrem se os ajudantes forem eficientes.

O clima tem andado meio incerto, com temperaturas invernais em locais antes tão quentes como um caldeirão fervente ou estiagem longa e inesperada em tempos de chuva, afetando diretamente a produção agrícola em todo o mundo.

Tenho acompanhado trabalhos com polinização das flores dos cafeeiros com ajuda das abelhas e os resultados são muito promissores, principalmente quando a florada ocorre com clima quente e seco, o que é muito danoso para a safra de arabicas. As altas temperaturas afetam o delicado sistema reprodutivo das flores, ocasionando menor fecundação, que pode resultar em maior presença dos grãos mocas ou arredondados, ou perda por abortamento.

Em clima normal, a polinização pode ajudar na uniformidade da florada, fundamental para a qualidade do café. As frutas devem ser colhidas maduras e quanto mais uniforme estiver a produção, mais rico será o perfil sensorial.
Por outro lado, manter colmeias nas propriedades cria outra fonte de renda para o produtor com mel e outros produtos como própolis e pólen.

Foto: Ensei Neto/Arquivo Pessoal.

Existem iniciativas como a Agrobee (www.agrobee.net), que fazem conexões entre criadores de abelhas e produtores rurais, incluindo cafeicultores, num caminho que mescla tecnologia digital e a agricultura.

Essas novas ferramentas se tornam contribuições muito importantes para que sistemas de produção de baixo impacto ambiental e também os certificados como orgânicos e biodinâmicos fiquem mais viáveis e, portanto, acessíveis à maior parte dos consumidores, deixando de ser produtos de nicho ou elitizados.

 

 

 

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