Paladar

Jô Auricchio

A fritura sombria do apocalipse

Bolacha recheada de chocolate frita? É o prenúncio de dias de sofrimento...

25 fevereiro 2010 | 10:12 por Estadão

No círculo interno do inferno, os mais importantes generais do coisa ruim ficam bolando maldades o tempo todo. E um dos temas das reuniões nefastas é gastronomia.

Sentados à mesa, várias criaturas sombrias conversam, em reunião fechada. Chefiando o encontro, Asmodeu, um demônio de alta patente, olha para seus pares e declara:
– Senhores, eu gostaria de felicitá-los pelo sucesso do nosso biscoito. Foi um modo muito perspicaz de entregar dor e sofrimento para a escória mortal.

– Obrigado, Asmodeu. Foi um trabalho conjunto de todo o Círculo Interno. – disse Nastirth, com sua língua bífida sibilando.

– Caros, antes de terminar, alguma consideração final?

No canto da mesa, meio escondido, o seboso Balaar levanta o dedo e fala, com sua voz cavernosa:

– Eu tive uma ideia muito divertida. E se nós vendessemos comida sombria na Cidade do Pecado? Eu não quero dizer apenas comida gordurosa e sem sabor. Falo de coisa pesada…

– Defina pesada… – disse Asmodeu, mexendo em seu queixo pontudo.

– Comidas gordurosas, empanadas, pingando óleo escuro.

– Excelente, Balaar. Comecem imediatamente!

Com uma risada nefasta, o Círculo Interno termina sua reunião, com a certeza que um novo flagelo assolaria a humanidade.

Eu não tenho certeza se foi assim que o conceito da bolacha de chocolate frita foi criado, mas imagino que não deva ter sido por inspiração divina que uma pessoa teve a ideia de pegar uma bolacha recheada, passar no ovo, passar na farinha, mais uma vez no ovo e finalmente jogar tudo em um balde de óleo fervente.

Recentemente, estive em Las Vegas, em viagem para o Link, e pude conferir de perto uma das criações mais hediondas do mundo da gastronomia.

Na Fremont Street, o lugar mais tradicional de Vegas, existem cassinos ancestrais. E foi em um desses que tive uma das experiências gastronômicas mais bizarras da minha vida.

Lá no fundo do cassino, o lugar do crime…

Eu preciso admitir: o pessoal lá é macho. É preciso uma enorme dose de coragem para fritar Oreos, bolachinhas de chocolate recheadas com gordura misturada com baunilha e açúcar, e Twinkies, que aqui conhecemos como Ana Maria, aquele bolinho recheado com alguma coisa de difícil identificação.

Imbuído do mais genuíno espírito desbravador, me aventurei a experimentar os produtos fritos. Como queria aproveitar a viagem, decidi tentar a banana congelada com chocolate.

Bem, a banana foi o artigo mais honesto que o local serviu. É o clássico sorvete de baixo custo.

Mas as frituras, minha nossa…

Além de virem pingando óleo parcialmente oxidado, elas vieram com uma montanha de açúcar de confeiteiro por cima.

O bolinho foi o que ficou menos pior. O recheio ficou muito quente e a massa absorveu uma boa quantidade de óleo. Só deu para arriscar uma mordida.

Mas a bolacha de chocolate, que criação maldita…

O artefato virou uma esponja rançosa de óleo. O recheio, semi-sólido pela ação do calor, ficou intragável. Foi uma experiência tão traumática que até hoje me arrepio ao lembrar do sabor gorduroso daquela atrocidade.

Então, fica a lição: sorvete frito (tempurá de sorvete), passa. Bolinho de chuva, legal. Mas bolacha de chocolate frita e bolinho recheado à milanesa, jamais.

Ainda bem que levei do Brasil um flaconete daqueles compostos herbais para o fígado. Foi o que me salvou da experiência lipídica.

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