Paladar

Jô Auricchio

Café Kunoichi

21 março 2009 | 14:39 por Estadão

Uma kunoichi, ou mulher ninja
Amantes do café, preparem-se. Peguem seus forcados, tochas, preparem os gritos de ódio contra minha pessoa. Aqui vai mais uma receita polêmica com o nobre grão.
Eu adoro café. Eu acredito no poder da infusão cafeinada. E isso me faz perseguir novas formas de tomar o precioso líquido.

Por isso, quando me falaram que em Santos, no museu do Café, serviam uma bebida que era feita com laranja, fiquei intrigado. Fiz tanto que acabei indo lá especialmente para provar a curiosa combinação.

Bem, não é ruim. Mas acho que a adição de outros ingredientes acabou por condenar o sabor do café. A laranja mesmo, a estrutura aromática dela não combinou perfeitamente com o café.

Pensando nisso, há alguns dias, eu decidi bancar o criativo e ver se conseguia eu mesmo fazer um café gelado diferente.

Tentei várias combinações, mas a melhor havia sido com limão. Mesmo assim, faltava um toque de sutileza, um dose de drama e choque para que minha invenção ficasse perfeita.

Então, estava eu em casa, no meio de uma maratona de games – para minha mulher, eu falo que tem a ver com meu trabalho no Link – e veio o desejo de café. Depois de umas três horas de jogo intenso, acho que a sobrecarga neural acabou abrindo algum canal de percepção que estava dormente em meu cérebro.

Em um estalo, peguei um copo de H2OH e joguei uma colherzinha de café solúvel 100% arábica dentro.

Subiu um monte de espuma, densa e perfumada. Temeroso que fosse uma nova forma de veneno, chamei meu canino Bender Rodriguez para avaliar a situação. Sem entender muito, ele olhou para mim, cheirou o copo e abanou o rabo. Bom sinal.

Eu normalmente uso Bender como uma espécie de provador real. Se ele não fica ofendido com o cheiro ou gosto de alguma coisa, eu sei que é relativamente seguro para comer ou beber. É claro, quando isso não envolve outros animais, pois Bender, por exemplo, acha o máximo enfiar o nariz no casco dos jabutis que moram no meu jardim.

Bem, como a bebida era 100% livre de répteis, me arrisquei.
E não é que ficou genial?

Como o refrigerante tem um suave sabor de limão, houve uma mescla peculiar de aromas. E como é pouco gaseificada, a bebida acabou intensificando o perfume do café. E geladinho, nossa, como ficou refrescante.

O mais bacana é a ausência quase completa de calorias. E como não é preciso colocar muito café dentro – eu usei uma colher das de café para 330 ml de refrigerante – não se corre o risco de entrar em overdose de cafeína.

A cor da bebida – um dourado escuro bonito, parecido com cerveja – a deixou ainda mais convidativa.

Como envolve produtos fáceis de transportar e usar, dá para fazer o café kunoichi no trabalho sem problema. Basta uma garrafinha de 600 ml do refrigerante e o café solúvel. Ah, tome pelo menos 1/3 da garrafinha antes, pois sobe uma espuma considerável quando se adiciona café.

Ah, eu chamei o café de kunoichi (a pronúncia é cunoitchí) porque essa é a denominação das mulheres versadas nas artes ninja. E tem tudo a ver com a bebida. É matadora como o café ninja, mas, como toda mulher, muito mais surpreendente, cheia de sabor e leveza. Sublime e mortal.

Refrigerante de limão e café. Café kunoichi.

Ficou com água na boca?