Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A chatice mora ao lado

09 maio 2009 | 20:36 por Luiz Américo Camargo

Ninguém é intrinsecamente chato, aprioristicamente chato, objetivamente chato. A chatice, para existir, precisa do outro. De um contexto coletivo. É um conceito social, diferente, por exemplo, de um atributo como a altura, que dispensa interações, é objetivo. Alguém tem um 1,90 m? Então é alto. É um dado.

Mas o chato, não: ele não existe sozinho. Depende da maneira como se projeta sobre a(s) outra(s) pessoa (s). O chato é um usurpador. Toma nosso tempo, nosso espaço, produz uma espécie de campo elétrico capaz de contaminar ideias, sensações, humores. A chatice, em níveis extremos, transportada aos salões de restaurantes (ah, agora você está reconhecendo este blog), compromete refeições inteiras.

Pois no almoço de sábado eu estive a alguns metros de um dos mais atilados exemplares desse tipo de patologia social. Eu só queria comer alguma coisa e conversar com minha mulher, mas havia uma grande mesa logo ao lado. Uma família comemorava o aniversário da matriarca, talvez uma dúzia de pessoas. E um dos componentes da mesa, pessoa de gestos largos e voz possante, teve o dom de estragar o ambiente inteiro – a casa era o Rubaiyat da Faria Lima.

Ele conseguiu falar um monte de bobagens, sobre os mais variados temas. Expôr um corolário notável de preconceitos e arrogâncias. Constranger os parentes. Intimidar os garçons (Pegou um deles para Cristo. Disse que o conhecia de lugares e tempos distantes, insistia para que o rapaz sentasse e “tomasse uma”. O funcionário, claro, recusou, encabulado). Na hora de pagar a conta, disse que ficaria com a dolorosa porque era o único a ter dinheiro na família. Sempre com decibéis de sobra e polidez em falta.

Numa sala ao lado, uma outra família, mais discreta, aparentemente celebrava um casamento ou coisa do gênero. O chatão, não satisfeito em dominar a sua mesa, estendeu seu charme e seu fino intelecto aos vizinhos. “Aquele cara é um gênio. Em vez de gastar uns 30 paus em festa de bufê, veio fazer a festa de casamento aqui, e gastou uns dois. Ô, garçom, quanto aquela mesa ali gastou?”

Tudo isso, vejam, não se limitava a quem estava logo à frente ou na cadeira ao lado. Irradiava para todas os outros comensais. E o que é mais incrível é que eu não sei se ele estava bêbado. Ou se era só um chato de primeira grandeza.

O fato é que toda experiência social, todo agrupamento, está sujeito à presença (e à performance) de gente inconveniente. Às vezes eles caem em nossa mesa, puxando temas impertinentes ou fazendo brincadeiras idiotas. Podem ser também cri-cris, agressivos, enfadonhos. Às vezes eles aparecem na mesa ao lado, com sua conversa mole capaz de tirar nossa concentração – e cativar nossa atenção para seus assuntinhos.

Desta vez, contudo, o chato parecia estar por todo o salão. O que fazer com um cara desses?

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Adendo nº 1: Como é difícil fazer um almoço tardio. As opções gastronômicas fecham cedo, em geral. Ficamos restritos, quando a refeição é para depois das 16h, a bares e churrascarias. Fomes mais primárias – com todo respeito -, enfim.

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Adendo nº 2: Eu sinto saudades do Rubaiyat. Daquele, que era um porto seguro do serviço, da eficiência. Nosso almoço foi um atropelo. Veio o couvert, pedi então costelinhas de porco – que chegaram antes que eu pudesse apreciar direito pães de queijo e afins. Já a lavanda, para limpar os dedos do ato de segurar os ossinhos suínos com as mãos, apareceu bem depois do necessário. A picanha summus, por sua vez, surgiu antes que eu terminasse as costelinhas. Na hora da conta, uma confusão com os valores, mais estresse. Enfim, uma falta de ritmo completa. A picanha estava boa, os funcionários são educados. Mas como fazem falta a precisão e a confiabilidade que aprendemos a admirar no Rubaiyat, um grande símbolo de expertise não só em grelhados mas em restauração de forma geral. Não foi a primeira vez, infelizmente. Fico pensando, entretanto, se o mega-chato não contribuiu para atarantar a brigada.