Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A contabilidade da mamma

29 março 2009 | 22:29 por Luiz Américo Camargo

Retorno aqui aos preços – e aos valores – da comida nos restaurantes da cidade. Resolvi apelar para os métodos matemáticos das mães, aqueles que levam em conta principalmente o custo do ingrediente.

Você já deve ter levado seus pais para almoçar e presenciado cena semelhante. A mãe olha o cardápio, repara na coluna de números listada ao lado dos pratos e exclama: “Puxa, com esse dinheiro eu compro dois quilos desse produto, faço mais isso, mais aquilo etc. Que absurdo”. E o normal foi sempre argumentar que o restaurante tem custos variados, da matéria-prima ao aluguel, do gás aos encargos trabalhistas, fora muitos impostos, e o prato embute o trabalho dos cozinheiros e por aí vai. Mas eu acho que a coisa anda fugindo do razoável.

Fui ontem à Ceagesp, queria fazer bobó de camarão. Comprei o camarão (rosa, médio, R$ 32 o kilo, bem fresco; levei para casa quase 800 g) e tudo o mais que precisava, mandioca, tomate, dendê etc. Fiz tudo como se deve, comemos fartamente, eu, minha mulher minha filha, ficou bom (mas não vem ao caso, não é disso que eu quero falar). Meus gastos não chegaram a R$ 40. Da ida à Ceagesp (moro perto), contando todo o preparo, até o ponto final da refeição, foram menos de duas horas e meia.

Se eu tivesse ido a um restaurante – de nível razoável, pelo menos – e pedisse a mesma quantidade de bobó, quanto sairia minha conta? Uns R$ 200, me arrisco a dizer.

Ok, eu não quero tomar como verdade a conta simplista das mamme, eu tenho noção da cascata de despesas com a qual um restaurante tem de arcar. Seria desonestidade impor esse tipo de raciocínio.

Porém, acho que passamos dos limites. Creio que as proporções entre os custos da comida feita em casa e a do restaurante estão saindo de esquadro. Será que os insumos subiram tanto assim? E a mão-de-obra de salão e cozinha está ganhando tão melhor do que há cinco anos? E os impostos tiveram uma escalada tão excepcional? E a expertise do cozinheiro, será que está sendo medida nos patamares dos chefs estrelados do Michelin?

Eu não vou usar a mesma régua para todos. Quem pratica gastronomia, claro, precisa cobrar mais: produto selecionado, procedimentos rigorosos, comida preparada com técnica, criatividade, tudo isso conta. Mas esses preços – e isso é o que me espanta – estão se generalizando. E alguns são absurdos.

Caramba, será que eu vou ter de dar o braço a torcer e dizer à minha mãe (uma ótima cozinheira, por sinal): “não é que você tem mesmo razão?”.

Ficou com água na boca?