Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

À direita ou à esquerda?

20 dezembro 2012 | 06:13 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 20/12/2012

É um tal de sobe escada, vira aqui, atravessa ali. Mas uma hora chega-se ao Rive Gauche Cuisine, no terceiro piso do Shopping Cidade Jardim, numa área com poucas lojas e nenhum ar de praça de alimentação. Agora, como direi… o clima é mais de rive droite que de rive gauche. Sim, eu sei que, oficialmente, aquela é mesmo a margem esquerda do Rio Pinheiros, que nasce no sul e vai para oeste. Se é para brincar de Paris, talvez o restaurante se inspire em Saint-Germain-des-Prés. Mas aspire à Rue de Faubourg Saint-Honoré.

A nova casa pertence a Ida Maria Frank, do Due Cuochi e do Le Marais. E ambos são referência para o Rive Gauche, que tem cardápio um pouco italiano e bastante francês. A parte da cucina foi concebida pelo abruzzese Giampiero Giuliani, titular do Due Cuochi; a da cuisine, predominante, ficou a cargo do bretão Marc Le Dantec, que comanda a operação diária.

O retorno de Le Dantec à cozinha francesa mais clássica é uma boa notícia para o cenário paulistano. O chef trabalhou com Olivier Roellinger, na Bretanha e, por aqui, com Laurent Suaudeau, no Bistrô Jaú. Depois, foi para Salvador, para voltar a SP em 2010, via Bistrô Charlô. No Rive Gauche, ele executa um receituário tradicional, mostrando aqui e acolá interpretações mais autorais.

Com alguns pontos mais altos, outros menos, comi bem. A execução dos pratos é precisa, as cocções são cuidadosas – ainda que eu não tenha detectado, por enquanto, lampejos como os do extinto restaurante Marc Le Dantec, na capital baiana. Mas gostei de entradas como os ovos benedict com salmão defumado, espinafre e sauce hollandaise (R$ 19); o steak tartare com salada e fritas (R$ 27); o carpaccio de brócolis (R$ 22); e de pratos como o peixe no vapor com cuscuz marroquino (R$ 58) e o steak au poivre com batatas duchesse (cuja base é o purê, modelado e assado, R$ 64). E percebi menos convicção em sugestões como a lula crocante com ratatouille de legumes (R$ 43) e no arriscadamente adocicado confit de pato com molho de laranja e batata normande gratinada (R$ 68). Das sobremesas, não vou negar que me diverti com o mil-folhas (R$ 23) e com a rabanada (R$ 21). Mas achei o creme brulée (R$ 22), pela textura, pelo sabor, disparadamente melhor.

E o serviço? Guarda ali, a seu modo, contradições à gauche e à droite. É capaz de amabilidades como, numa noite movimentada, conseguir uma mesa com vista para a marginal. E de chatices como a insistência com o vinho: em todas as visitas, a carta foi oferecida enquanto eu ainda me acomodava. “Já quer escolher o vinho, senhor?”. Não bastou dizer que, primeiro, eu queria escolher a comida. E a ansiedade seguia, com consultas periódicas, “e agora, quer pedir o vinho?”

Por que essa prática – não falo só do Rive Gauche – se difundiu tanto pela cidade? Política de vendas, ou confusão de vinho com aperitivo? Por que lugares que se colocam como bistrôs e trattorias precisam enveredar por aí? Talvez, no fundo, minha natureza seja apenas mais modesta. Pois costumo chegar aos restaurantes, em vez de ávido por brancos e tintos, simplesmente com… fome.

Por que este restaurante? Porque é uma novidade.
Vale? É fácil gastar R$ 150/ cabeça. Pesado.

Rive Gauche Cuisine. Av. Magalhães de Castro, 12.000 (Shopping Cidade Jardim,
3º piso), 3758-2616.