Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A fase budista de Jacquin

29 abril 2010 | 15:52 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 29/04/2010

Fui ao Buddha Bar em busca da cozinha de Erick Jacquin. Não apenas por conta da novidade – ele acaba de reformular o cardápio do dining club, implantando novos pratos. Mas também à procura dos melhores sabores do chef, que, a meu ver, paradoxalmente não têm sido encontrados nem no La Brasserie nem no Le Buteque.

Ainda que Jacquin continue sendo um dos grandes nomes da cuisine française em São Paulo, seus restaurantes não vivem momentos tão brilhantes. O La Brasserie, que teve fases primorosas até 2008, não tem apresentado a mesma regularidade. Já o Le Buteque, o bistrô informal do cozinheiro, parece carecer ainda de alguma identidade (a casa passou inclusive por uma reforma, e reabre amanhã). O que esperar, então, das intervenções do chef como consultor em um clube noturno?

O Buddha Bar, rede internacional com matriz parisiense, tem notória inclinação gastronômica orientalizante. A associação entre comida asiática, em especial sushis e sashimis, e lugares moderninhos, por sinal, é algo frequente e intrigante. Seria o apelo daquilo que parece exótico? Ou de uma suposta praticidade na hora de comer? Enfim, voltando ao menu assinado por Jacquin, a proposta parece mais uma aproximação de mundos – a França e a Ásia – do que exatamente uma fusão.

A fórmula traçada por Jacquin é clara. O predomínio é de sugestões como torrada de steak tartare agridoce, carpaccio com molho de wasabi, fricassé de legumes orientais com frango. Para quem não quer invencionices, há pratos franceses normais, como terrine de foie gras ou filé com purê de batata. Se nada disso agradar, a outra possibilidade de fuga está nas massas e risotos, sem contar a parte japonesa do menu.

Um dos melhores pratos do chef, o robalo ao vapor com ervas, foi reapresentado aqui. É servido com palmito laqueado e sashimi, claro, de robalo (R$ 65, um prato pequeno). O peixe cru, talhado em cortes bem finos, estava apenas mediano, um pouco fibroso. Já o pedaço ao vapor estava ao melhor estilo da Brasserie, tenro e delicado, cozido à perfeição. Outro ótimo prato: a codorna desossada ao curry (R$ 51), servida com maçã assada, com a carne da ave úmida e com sabor, acreditem, de codorna. Parecia, enfim, a comida de Erick Jacquin. Só que feita por Anderson Sousha. O nível só caiu na hora da sobremesa, o geladíssimo e quase insípido choco-damasco (R$ 17).

Agora, os avisos necessários. Esta não é uma refeição como outra qualquer. Trata-se de um espaço dentro da Villa Daslu, onde a comida, em tese, é algo que acontece enquanto desfruta-se do ambiente, da agitação. Porém, ir aos restaurantes pensando principalmente na cozinha é um exercício que nos ensina algumas coisas.

Da mesma forma que aprendemos a perceber o talento do cozinheiro num lugar muito simples, podemos reconhecer que um night club onde o DJ é o soberano do salão pode também preparar bons pratos. Ainda que seja tudo caro, seguindo a escalada de preços altos que assola São Paulo. E ainda que a música altíssima dificulte qualquer conversa à mesa, inclusive a comunicação com a brigada, extremamente gentil. Mas isso é o que posso dizer sobre o restaurante. Já sobre a balada, desculpem: não entendo desse assunto.

ONDE FICA

Buddha Bar
Av. Juscelino Kubitschek, 2.041 (Villa Daslu, 3044-6181. 20h/1h (3ª a 5ª até o último cliente; fecha dom. e 2ª)
Cc.: todos. Cardápio: francês com toques orientais, por Erick Jacquin

Ficou com água na boca?