Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A fórmula do aconchego

25 outubro 2012 | 13:37 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar 25/10/2012

Não há como fugir dos bolinhos. Ainda que você queira começar beliscando outras coisas, uma hora vai se deparar com os quitutes que fizeram a fama do Aconchego Carioca. É preciso devorá-los para captar a alma deste bar/restaurante. O que não é nenhum problema, pois eles são apetitosos (talvez um tanto secos), um exemplo de petisco executado com o rigor que se devota mais comumente a um prato. Agora, aqui entre nós: se o de feijoada (R$ 21) é a estrela da casa, eu gostei mais do de grão-de-bico com bacalhau (R$ 26); e do de virado à paulista (R$ 21), criado para compor o cardápio da filial aberta em setembro nos Jardins.

O Aconchego vem se destacando há anos no cenário do Rio de Janeiro. Kátia Barbosa, chef e proprietária, debruçou-se sobre a ideia tradicional de boteco e deu uma volta a mais no parafuso, apresentando uma visão criativa de tira-gostos, somada a uma competente interpretação de clássicos populares. Não por acaso, as filas se tornaram parte do cotidiano da casa, que atrai multidões à Praça da Bandeira (zona norte do Rio), entre locais e turistas.

Na unidade paulistana, Kátia Barbosa mantém as propostas, o que inclui a atenção especial às cervejas. A carta de 200 rótulos foi montada pelo expert Edu Passarelli, também sócio, sempre presente no salão. E o cardápio destaca moquecas, escondidinhos e especialidades como o bobó de camarão (R$ 82), generoso, aromático, clamando por gotas de pimenta. Já num cotejo suíno, gostei bastante da picanha de porco com redução de cerveja (R$ 69), e um pouco menos da costelinha no molho de goiabada (R$ 68), servida com deliciosos pastéis de angu. E faço uma ressalva, no que diz respeito à guarnição comum a quase todos os itens: precisa mesmo ser arroz parboilizado? Ok, seu uso é mais à prova de erros. Só que não é tão gostoso.

No geral, aprecio o programa e a abordagem culinária. Trata-se de uma cozinha nacional descomplexada, que agrega sabores de um Brasil Leste-Nordeste de forma espontânea, sem precisar erguer estandartes. Porém, entre bolinhos e que tais, mastigo também uma dúvida sobre o dito posicionamento da casa. Mesmo que o perfil seja o de um bar gastronômico, é preciso ter claro que o espírito da coisa é compartilhar pratos, petiscar e beber cervejas, em clima descontraído; só que, se bobear, a aventura pode sair no preço de um jantar formal com vinho, o que não harmoniza tão bem. O menu do almoço, em contrapartida, custa honestos R$ 32,90.

Mas, a julgar pelo movimento, com espera especialmente nas noites de fim de semana (segundo a chef, as filas aqui são em atmosfera mais serena do que no Rio), é provável que o Aconchego consiga varrer inclusive a fama de ponto meio micado do número 1.372 da Al. Jaú, por onde já passaram vários estabelecimentos. Quem sabe aquela quadra meio erma do Jardim Paulista andasse mesmo precisando de uns ares cariocas.

Por que este restaurante? Porque é uma boa novidade.
Vale? Os pratos são para dividir. Mas atenção com cervejas e petiscos. Na empolgação, é fácil bater os R$ 100 por cabeça.

Aconhego Carioca. Al. Jaú, 1.372, Jd. Paulista, 3062-8262.