Paladar

A hospitalidade como princípio

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A hospitalidade como princípio

23 abril 2014 | 22:00 por Luiz Américo Camargo

O Mimo, uma casa agradável aberta há um ano no Jardim Paulista, me faz lembrar daqueles slogans das antigas padarias. “Servir bem para servir sempre”, ou ainda “Grato pela preferência”. É um lugar com vocação para receber com cordialidade, sem abusar de salamaleques.

Fiz três visitas recentes, uma delas durante a Restaurant Week. E vi o mesmo bom tratamento estendido a todos, inclusive aos clientes notoriamente neófitos que buscavam o menu promocional. Uma política de acolhimento implantada pela proprietária Fernanda Duarte desde a abertura. E personificada, entre outras coisas, pelo “mimo” servido a todos que chegam: um involtino de berinjela, uma massa, uma surpresa que muda diariamente.

Despojado. Ambiente clean, com cardápio de acento mediterrâneo. FOTO: Robson Fernandjes/Estadão

Mas eu precisava cumprir o prazo de entrega deste texto, e não me vinha a formulação mais clara sobre o conjunto da experiência – pois, entre tantas peças bem conectadas, havia algo fora de encaixe. Até que, pensando na ambientação moderna, na decoração despojada, quase neutra, me ocorreu o seguinte. Embora eu tenha comido bem, acho que o Mimo tem lá suas questões com o que eu chamaria de arquitetura dos pratos. Já explico.

O restaurante reformulou o cardápio, com várias novidades propostas por Volney Ferreira – um chef com passagens por restaurantes como Le Calandre, no Vêneto, e Martin Berasategui, no País Basco. Seus pratos, considerando o que provei, são tecnicamente bem executados (e algo tímidos no sal). Mas com uma tendência para a complicação que não orna tão bem com o espírito do programa.

Uma entrada como o peixe azul curado (no meu caso, foi a cavala) com cítricos, guacamole e pepino cru em tiras (R$ 29), chega à mesa numa apresentação horizontalizada, esparsa, dificultando a integração entre os ingredientes. Impressão semelhante foi causada pela sopa fria de tomate com pepino e cenoura (de novo, em tiras) com burrata e polpa de berinjela (R$ 28), cuja montagem – desta vez, verticalizada – também não facilita para o comensal.

Entre os pratos, meu preferido foi o confit de pato acompanhado por batata com mostarda à l’ancienne e molho de tamarindo e laranja (R$ 59), tenro e muito saboroso. Também gostei do orecchiette com creme de abóbora, queijo da cabra, agrião, farofa de pão, pancetta e amêndoas (R$ 40) e do peixe do dia (na ocasião, namorado) com nhoque frito, aspargos (de novo, em tiras) e emulsão de laranja e açafrão (R$ 53). No outro extremo, achei confuso o risoto alla amatriciana, com molho de tomate, tomate seco defumado, pancetta, anéis de cebola (R$ 39,50).

Em síntese, penso que o Mimo, sucinto no serviço e na decoração, não carecia de pratos com tantos elementos, com tanta informação. Bastava que a comida, que é boa, buscasse mais a essência do que a complexidade. Afinal, um restaurante de nome e proposta tão concisos precisava de receitas tão caudalosas?

Por que este restaurante?
Porque é, no conjunto geral, um bom programa.

Vale?
O menu executivo de almoço custa R$ 36,80. Pela carta, a refeição completa sai em torno de R$ 100. Vale conhecer.

SERVIÇO – Mimo
R. Caconde, 118, Jd. Paulista
Tel.: 3052-2517
Horário de funcionamento: 12h/15h e 19h30/23h (6ª, até 0h; sáb., 12h30/16h e 19h30/0h; dom., 12h/17h; 2ª, só almoço)
Cc.: todos
Estac.: manob., R$ 17

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 24/4/2014

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