Paladar

A roupa nova do Supra

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A roupa nova do Supra

30 abril 2014 | 22:00 por Luiz Américo Camargo

O Supra andava fazendo falta. Ir ao restaurante, à época na Rua Araçari, era um programa seguro, com a certeza de ser atendido com fidalguia e comer uma massa caprichada. Tenho para mim que a casa do chef e proprietário Mauro Maia, nos primeiros anos da década passada, deu inclusive suas contribuições ao aggiornamento da cucina praticada na cidade. Sua pasta bem cortada e bem fechada, al dente, e seus molhos elegantes ajudaram a nos trazer um pouco da realidade contemporânea da Itália – que, diferentemente da culinária cantineira implantada pelos imigrantes, cem anos atrás, tem mais de leveza e frescor que de potência e exuberância.

O restaurante funcionou de 2002 a 2008, quando deu lugar a um empreendimento imobiliário, e o chef se afastou da gastronomia. Até que, há menos de um mês, foi reaberto com outra orientação, no mesmo Itaim Bibi, e com um nome quase igual: Supra di Mauro Maia. A casa agrega restaurante, rotisseria e empório; sua ambientação, moderna, de feição mais pop, em nada lembra a austeridade serena da sede original. Não há luxos, o cardápio é mais conciso (e menos apegado ao norte da Itália) e os preços, mais amistosos.

Retorno. Sem luxos, cardápio mais conciso e preços mais amistosos. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Foi um alento reencontrar os grissini do couvert (R$ 9,90), o carpaccio preparado à maneira clássica, o tiramisù (R$ 16) construído sem invencionices. E rever massas como o tortelli mantovani di zucca (R$ 39,90), doce na medida. E, principalmente, o agnolotti dal plin (R$ 39,90), preparado à maneira piemontesa, com o molho do assado simplesmente criando a moldura adequada para a pasta delicada, recheada com carnes e verduras.

Gostei ainda do cabrito assado – e depois cozido – com molho de cachaça e legumes ao forno (R$ 53), muito macio, embora com notas amargas além da conta. (Observação: era cabrito mesmo, não cordeiro; um animal de quatro meses, segundo o maître). Porém, fiquei um pouco incomodado com o serviço, ou melhor ainda, com a atmosfera: embora o clima seja de gentileza, há uma certa correria, uma quase tensão, e um excesso de movimentos que não necessariamente se refletem em atendimento eficiente.

É óbvio que foi-se o tempo em que o garçom levava à mesa o tabuleiro de massas, manuseadas na hora, e o expunha orgulhosamente ao cliente, antes do cozimento. Isso fazia sentido lá atrás, na Rua Araçari. Mas me parece que falta harmonizar as dinâmicas internas: o prato que vem dali, o produto vendido aqui, o pedido retirado acolá. Ao que parece, o reencarnado Supra ainda vai se acostumando com a roupa nova. Ainda estranha o corte, o caimento, o estilo mais informal. Felizmente, a matéria-prima continua confiável. Numa cidade que dispõe de tantos italianos, mas abriga tão poucas opções que equilibrem qualidade e preço, o retorno é bem-vindo.

Por que este restaurante?
Porque é uma boa novidade.

Vale?
O menu executivo custa R$ 56. Pedindo pela carta, uma refeição completa custa em torno de R$ 100, sem bebidas. Há várias opções de vinho em taça, além de garrafas (algumas, de importação exclusiva) a bom preço. Vale.

SERVIÇO – Supra di Mauro Maria
R. Leopoldo Couto de Magalhães, 681, Itaim Bibi
Tel.: 3071-4473
Horário de funcionamento: 12h/15h (5ª e 6ª, também 19h30/23h; sáb., só 19h30/23h30; dom., só rotisseria e loja, 10h/20h)
Cc.: todos

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 1/5/2014

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