Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

A tipicidade

26 agosto 2009 | 09:21 por Luiz Américo Camargo

No texto que sai amanhã no Paladar, falo sobre uma tasca aberta há poucos meses na região de Santo Amaro – amanhã conto tudo, o nome, onde fica, peço só um pouquinho de paciência. O que há de especial sobre ela? A autenticidade, a simplicidade. A sensação de que estamos mesmo num boteco espanhol, com pratos saborosos, baratos. Em uma palavra, me cativou a sua tipicidade (no sentido daquilo que é fiel a certos traços, daquele conjunto de características capazes de identificar inequivocamente alguma coisa).

Para nós, de São Paulo, que, dentro do panorama brasileiro, convivemos com culinárias de várias origens, o ato de ir a um restaurante ‘estrangeiro’ é corriqueiro. Mas o que esperamos desses lugares, quando os visitamos? Na maioria dos casos, só comer bem, dentro de um receituário mais ou menos conhecido e esperado. Francês? Que venha então um cassoulet apurado, um coq au vin decente. Italiano? Que a pasta seja al dente e seu molho, equilibrado. Por aí seguimos.

Mas existem lugares que transcendem o ‘bem feitinho’. Foi o que senti quando provei a tortilha de batatas da referida tasca: era quase como estar no balcão de um bar de tapas na Espanha. Ou quando comi o steak tartare e o patê da casa no L’Amitié: seu despojamento evoca com muito mais força a atmosfera parisiense do que outros lugares que abusam do rococó.

Ou seja, a tipicidade é simples. Ela toca na essência, não no supérfluo.

Recentemente falei de dois italianos despretensiosos, o Marina Di Vietri e o Café Toscano. Qual é o charme dos dois lugares, cada qual dentro do seu estilo? Apresentar, quem sabe, os vestígios de uma imigração recente, uma memória fresca da casalinga que é praticada nos dias de hoje. Não é a nossa cozinha cantineira, não é a cucina que almeja as pompas do palácio. É apenas algo que parece de verdade.

O que não significa que a ‘cuisine verité’, com o perdão do termo, seja a melhor coisa do mundo. Digamos que são sabores que nos encantam, inclusive pelo aspecto gustativo. Mas o ponto é que eles nos fazem viajar, nos permitem ir além das fronteiras.

A tipicidade nos permite o vôo sem jet lag.