Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Acerca de la Malbec

26 fevereiro 2009 | 19:31 por Luiz Américo Camargo

Talvez seja o último post a respeito, mas ainda quero falar da Argentina.

É que comer, beber, essas coisas me provocam reflexões que vão e voltam. Tenho uma espécie de delay aqui na máquina de degustar: as ideias e impressões não chegam na hora. Passam por um filtro de memória, de subjetividade, de comparações. Um processo que me lembra uma bebida sendo destilada em um alambique, cheia de tonéis e serpentinas, voltas, subidas, descidas.

Enfim, quero começar pedindo permissão para Saul Galvão e Luiz Horta para entrar na seara do vinho e declarar: acho que não entendo bem a Malbec argentina.
Assim como os esquimós, que distinguem (inclusive com nomes específicos) vários tons de branco, eu queria ser capaz de perceber os vários tons da Malbec. Mas não consigo.

Vou aqui partir para uma simplificação. Percebo os potentes, os muito potentes, os extremamente potentes. E outros traços que identifico já não são nuances da uva, mas do processo: o cocão, o baunilhão, vestígios, enfim, de muito roble.

Gosto de uma imagem da letra de “Carioca”, de Chico Buarque: o sol se pondo na montanha “quase arromba a retina de quem vê”. Pois eu tenho a impressão que alguns Malbecs arrombam as papilas gustativas, são quase asfixiantes. Acho esta casta é mais interessante em cortes, notadamente os de perfil bordalês.

Com as qualidades do terroir, com as virtudes de enólogos e vinhateiros principalmente em Mendoza, com a cultura do vinho já difundida pelo país, eu só lamento que a Argentina não invista mais em elegância, em sutileza. Estão certos eles: se americanos e ingleses topam pagar bem (em larga escala) por tintos potentes, que assim seja. Mas senso estético e apetites se transformam, o pêndulo do gosto balança. Quem sabe.

No último dia 11, participei no Park Hyatt de Buenos Aires de uma degustação dirigida por dois grandes sommeliers, o austríaco Aldo Sohm (na primeira versão deste post, disse que ele era sueco, perdão; Luiz Horta me corrigiu em tempo) e o argentino Marcelo Rebolé (do próprio Hyatt). Foi apresentada ali uma seqüência de vinhos pujantes, tecnicamente muito bem feitos, a maioria tendo a Malbec como estrela principal. Muita fruta, muito álcool. Mas, para mim, o céu só se abriu quase no encerramento, na hora do Nicolás Catena Zapata 2005 (88% de Cabernet Sauvignon, 12% de Malbec): enfim, algo que soava mais como música de câmara do que como big band. A tarde foi salva.

Se vocês viram o meu vizinho Glupt!, devem ter lido que Nicolás Catena foi eleito pela Decanter a personalidade de 2009. Em outro post, o Horta aponta o Catena Alta Cabernet Sauvignon como o melhor vinho argentino que ele já bebeu (juro, não combinamos nada, foi coincidência). É reconfortante pensar a respeito: ao menos desta vez, foi o triunfo da elegância sobre a exuberância.

Ficou com água na boca?