Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Alguém pode ligar o desembaçador?

04 maio 2010 | 00:27 por Luiz Américo Camargo

Está ficando tudo turvo. Conseguem perceber? As formas se indefinem, os detalhes parecem embaçados. Não há mais fronteira aparente.

Do que trata este texto? Estarei eu com uma síncope pós-moderna? Não. Adivinhou quem acha que estou falando da política de preços dos restaurantes na cidade. Quem segue o blog, pode até ter intuído.

É que os critérios estão mesmo bagunçados. Escrevi há poucos dias sobre o Buddha Bar, que estreou cardápio de Erick Jacquin. Não é o tipo de ambiente que eu goste de frequentar (a música altíssima é o pior), mas o fato é que comi direito, com ótimos momentos e outros mais fracos. E não é pelo fato de não curtir esse tipo de balada que eu vou deixar que meu paladar seja contaminado. Mas não é esse o ponto.

É caro? Claro que é.  Mas, pensando bem, para um lugar que fica dentro da Villa Daslu, que trabalha mirando um público que não costuma prestar atenção no que gasta, que investe um bocado em ambientação, até que a casa não está fora dos parâmetros paulistanos. E aí chegamos à questão.

Antes, aquilo que era caro ao menos parecia tentar se justificar. O Fasano tem preços altos? Obviamente. Porém, se você examinar os detalhes, entende que um importante percentual daquilo que se paga é destinado a sustentar todo um aparato, dos talheres às roupas do garçom, da decoração às taças de cristal. O duro, entretanto, é que em muitos restaurantes não percebemos mais para onde foi o dinheiro.

Isso acontece em churrascarias, em italianos, em franceses… Olhamos em volta em pensamos: Por que a conta veio tão absurda? É produto? É técnica? É o endereço? Na maioria das vezes, não é nada disso. As coisas estão caras porque estão caras, ponto final. As despesas são elevadas, a demanda está aquecida e, portanto, cria-se um ciclo de aumento de patamar de valor. Cozinhas chinfrins acabaram se ombreando a lugares melhores – ao menos, na hora da conta.

Foi assim que acabei tendo a estranha impressão descrita no início do post: comparando com outros lugares, sem gastronomia, sem luxo, o Buddha Bar parece cobrar algo razoável. O que é revelador da insanidade desses nossos tempos.

Quem realmente vale o que pede? São poucos, atualmente. Ou estarei vendo coisas? Como diz aquela canção dos anos 80, “Vai ver que a confusão fui eu que fiz”.

Ficou com água na boca?