Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Alguém provou este prato? (2)

17 maio 2010 | 00:30 por Luiz Américo Camargo

É intrigante reparar como certos lugares se estabelecem sem o mínimo preparo. Visitando o reaberto …Coq (sic), na Rua Tupi, fiquei impressionado com o que provei. O restaurante fechou por uns tempos, passou por uma reforma estrutural do imóvel, que é antigo, e voltou a funcionar recentemente.

Certo, vamos lembrar que o restaurante sempre funcionou como um lugar meio alternativo, com espaço para lounge, clima meio ‘juvenil-brechó-cabeça’, e uma cozinha que enveredava por alguns pratos meio contemporâneos. Ou seja, mais atmosfera do que comida. Mas parece que desandou de vez.

O que experimentei? Um filé – que pedi ao ponto, veio super-passado – ao béarnaise, com um molho, digamos, indescritível, e batatas muito engorduradas. (Será que os responsáveis pela cozinha, um dia, comeram um bom béarnaise na vida?) Um frango ao citron com cappelini que, na prática, era assim: dois pedaços de ave com um molho azedíssimo servidos com espaguete (não cappelini) extremamente cozido, mole mesmo. Um steak tartare com um molho fortíssimo, carregado. Sem contar um filé ao roquefort, duro, e um penne com cogumelos apenas passável.

Comer bem, comer mal, isso acaba sendo da rotina do meu trabalho. Costumo ser tolerante com deslizes, principalmente quando detecto que o desacerto foi uma infelicidade, um acidente; e quando reparo que havia ali uma boa intenção, uma proposta de sabor. Porém, o que deixa me encafifado são erros de concepção tão estapafúrdios.

Meses atrás, escrevi um post (aqui) tratando justamente deste problema: será o que o profissional que liberou os pratos provou a comida antes de servir? Ou, pior, será que ele provou e achou que estava mesmo tudo certo?

O atendimento do …Coq fica naquele meio termo entre o sociável e o blasé-descolado. Os pratos (dois deles ao menos) voltaram quase inteiros para a cozinha. Ninguém percebeu, ninguém falou nada. Paguei e, ao me levantar da mesa, um dos garçons, presumo o chefe do salão, um sujeito simpático, perguntou como foi. Expliquei que, na verdade, não foi. “Que pena”, ele disse. “Vou passar essa informação adiante”. E, enquanto saíamos, ouvi o rapaz ir à boqueta para falar: “Ó, a mesa número tal não gostou, hein?”.

Volto assim à velha questão: será que a pessoa que está no comando da cozinha achava mesmo que aqueles pratos eram bons? É um mistério.

Ficou com água na boca?