Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Back to 80. E 60, 70…

05 abril 2013 | 05:56 por Luiz Américo Camargo

Quanto tempo fazia? Vinte anos? Eu não sabia dizer quando foi a última vez em que ouvi Push, do The Cure, uma canção (canção?) de 1985. Mas, curiosamente, sentia de forma meio vaga uma espécie de reminiscência a respeito da primeira vez. Os acordes de guitarra, as tensões e distensões… Lembro que parecia moderno, fora do padrão das coisas chatas que tocavam na maioria das rádios… Descobrir o rock inglês do início dos anos 80, aliás, foi um alívio. Uma libertação de sons do tipo ‘balanço’, do hippismo tardio que ainda reinava por aqui, das bandas que soavam como jingle de cigarro.

E o mais interessante foi reouvir o tema justamente à espera de uma refeição, numa visita recente ao Ramona (Av. S. Luís, 282). Para gente acima dos 40 e, vá lá, com o meu tipo de corte cultural, talvez seja a casa com a melhor seleção da cidade. The Smiths, Talking Heads, Bob Dylan (obviamente), Doors, Blondie, Echo & Bunnymen, Lou Reed… a variedade com qualidade é de se admirar. De certa forma, a música ambiente do restaurante me remete a um tempo em que não era simples sair da programação “comercial”. Uma era pré-Google, pré-iTunes.

E não é conversa mole de quem não é nativo digital.  Mas a gente dava um duro danado para achar uma rádio decente, para procurar discos importados, copiá-los em cassete  (só os muito ricos podiam pagar 50 dólares num EP com alguma banda tocando no programa do DJ John Peel, da BBC), encontrar shows que prestassem. O Ramona, de certa forma, com sua trilha sonora, me lembra aquele clima de certos clubes noturnos, de algumas lojas de discos, que faziam “sessões especiais” para exibir videos (em VHS, claro) e tocar discos que raramente chegavam ao Brasil.

Por fim, para deixar claro. A playlist da casa não me chama a atenção por questão de nostalgia ou por recuerdos juvenis (não sou passadista; acho, inclusive, que a vida melhora com o tempo). Aliás, já nem ouço tanto rock/pop. A trilha vale simplesmente porque é boa de fato.

(A propósito: neste espaço de sexta, dedicado à “crítica de música de restaurante” – sons, de modo geral -, sugestões são sempre bem-vindas. E crítica, como se sabe, embora se esqueça, não é sinônimo de falar mal. É mais uma tentativa de pensar a respeito. O que inclui gostar e desgostar)