Paladar

Caprice en la prononciación

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Caprice en la prononciación

12 fevereiro 2014 | 20:30 por Luiz Américo Camargo

Eu bem que tentei aportuguesar o pedido, mas não teve jeito. Precisei mesmo caprichar na pronúncia da “tarta de queso” para que o garçom entendesse minha escolha de sobremesa. No Museo Veronica, o esquema é esse: o cardápio está todo em espanhol, assim como os pratos do dia escritos na lousa. E, à maneira do que ocorre nos restaurantes japoneses da colônia – só que numa língua obviamente familiar –, a diminuta brigada também não está muito preocupada com traduções. Se nem todos conhecem chistorra, flamenquines ou carrillada (as dúvidas mais ouvidas nas mesas ao redor), que perguntem, seja ao camarero ou ao Google.

No dizer de um dos sócios, Dario Taibo, o Museo é uma casa mais senhorial, enquanto sua irmã mais velha, o Maripili, é a tasca. Contudo, mesmo tendo um ambiente aconchegante, ainda que sem luxos, o novo restaurante trabalha com preços acessíveis. E, o que é mais interessante, representa quase uma quarta vertente da cozinha de inspiração espanhola praticada por aqui. Explico melhor. No início, foi o longevo reinado da paella (e o principado do puchero); bem depois, vieram os acenos para a nueva cocina e suas vanguardas, seguidos por uma mais recente hola de tapas e pintxos. Já o cardápio proposto pelo chef Alberto Navarro aponta para um repertório trivial, próximo da realidade cotidiana – e, até por isso, atual.


Museo. ‘Quarta vertente’ espanhola, sem luxos e com preços acessíveis. FOTO: Tiago Queiroz/Estadão)

Nomenclaturas e excentricidades à parte, as refeições começam bem com itens simples e bem resolvidos como o salmorejo (R$ 10), o primo mais denso e potente do gazpacho, e a tortilla de batatas (R$ 7), preparada ao estilo do Maripili. E se afirmam mais ainda na hora dos pratos, que são expressivos e bem apresentados (mas não muito grandes; convém pedir entradas e porções). O rabo de toro (R$ 28) é tenro e bem apurado, o arroz com verduras (R$ 28) vem à mesa al dente e é profundo de sabor, a delicia de bacalao (R$ 32) traz uma inteligente variação do clássico al pil pil… Um receituário sem iguarias, mas atraente.

Se a cozinha capricha na tipicidade, o atendimento, que é afável, também se inspira no modelo europeu. O que significa poucos garçons à disposição, inclusive porque eles também cuidam do bar. Portanto, em momentos de pico, as coisas de fato demoram um pouco. Numa das visitas eu sentei no terraço, o que foi agradável. O calor estava mais ameno do que o das últimas semanas, e um vento oportuno cortava a esquina das Ruas Tuim e Jacutinga. Com a temperatura atual, no entanto, não recomendo. É melhor disputar um canto no balcão e aguardar uma mesa no salão, onde o serviço é mais fluido.

(Ah, sim, a chistorra: é um embutido basco feito com muita páprica. Flamenquines? Rolinhos de lombo de porco, empanados e recheados com jamón. E carrillada é bochecha; bovina, nesse caso).

Por que este restaurante?
Porque é uma boa novidade. Pela comida espanhola simples e a bom preço.

Vale?
Uma refeição completa sai em torno de R$ 50. Os vinhos também têm preço camarada, com garrafas a partir de R$ 30. Vale.

SERVIÇO – Museo Veronica
R. Tuim, 370, Moema, 5051-2654.
12h/23h (dom., 12h/16h; fecha 2ª).
Cc.: todos.
Estac.: não tem

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 13/2/2014

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