Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Caramba, dez anos?

16 abril 2013 | 12:44 por Luiz Américo Camargo

Numa contabilidade meio imprecisa, eu diria que estou completando dez anos no jornalismo gastronômico. Foi pelo fim de 2002, início de 2003, que comecei a cometer a primeiras linhas no tema.

Comida e vinho eram apenas hobbies. Eu cozinhava, ia a restaurantes, provava tintos e brancos, estudava o assunto. Queria preservá-lo como um território de lazer, um contraponto ao desgaste do cotidiano. Acabou virando profissão.

Lá pelos anos 90, passei a me interessar mais vivamente sobre receitas, ingredientes, cardápios, pratos, garrafas. Considero aquele um momento quase mágico, e acho que não apenas para mim. Eu, do meu lado, me tornava um assalariado com algum excedente para gastar em bobagens. E o Brasil começava a se abrir para os produtos importados, logo no início da década. Em seguida, veio o Plano Real, com a estabilidade de preços e a paridade com o dólar, que durou até 1999. Nada, nada, foi a hora de se esbaldar, de provar coisas novas. De comer, beber e ler intensamente, tirar o atraso de anos. Pulemos, então, para 2002/3.

Eu trabalhava no Jornal da Tarde, numa editoria de hard news, envolvido com temas como polícia, enchentes, administração municipal. Um repertório árido, um universo tenso. Só para desopilar, resolvi propor matérias (inicialmente, mais sobre vinhos) para o caderno de Variedades. Precisava lidar com informações que, ao menos, me dessem mais prazer. Emplaquei a primeira; depois outra… e foi poc a poc, como dizem os catalães.

Lembro, então, de um dia no fim de 2003. O Ilan Kow tinha assumido a editoria do Variedades naquele ano. E comida era um dos nossos assuntos preferidos – uma quase obsessão, que acabou sendo fortemente explorada na criação do Divirta-se, em 2004, e do Paladar, em 2005, ambos já no Estadão. Foi uma conversa no corredor. “O Saul agora vai escrever só para o Estadão, não mais para o JT. Você quer fazer a crítica semanal?”. Eu nunca tinha feito aquilo, mas claro que aceitei. (Nota: pouco tempo depois, eu passaria a trabalhar também com o saudoso Saul Galvão, no ‘Guia’ do Estado, que também viraria Divirta-se, e no Paladar)

Minha estreia como crítico foi em janeiro de 2004. Para ser diferente, digamos, e pela própria proposta editorial do JT naquele momento – o jornal estava em busca de audiência em bairros menos explorados –, escolhi um restaurante no Tatuapé, o Euclides. Um lugar decente, uma boa dica regional. Mas fechou, pouco anos depois.

Passei, então, a publicar resenhas semanalmente, e a coluna tinha o nome de ‘Garfo e faca’. Começou no Variedades, logo depois passou para o Divirta-se, também do JT, já em formato de guia. A coluna ‘Eu só queria jantar’, no Paladar, surgiria apenas em 2009 – quando foi ao ar também este blog. Acertando e errando, acho que fui fazendo as coisas do meu jeito. Sempre com rigor, sempre de espírito aberto. Queria produzir um misto de review e criticism, um comer pensando (vá lá…), um compartilhamento de informações e impressões sobre pratos e ambientes. Buscando, claro, uma narrativa que fosse agradável.

Se eu consegui, por vezes, prestar um serviço ao público e, principalmente, consegui fazê-lo refletir sobre as refeições e seus contextos, isso me faz muito feliz. Tenho orgulho de dizer que vários leitores, não poucos, viraram amigos. Mais ainda, viraram fonte de conhecimento.

Desde o fim de março (há menos de um mês, portanto), comecei uma nova fase profissional. Consegui concretizar uma virada que já vinha planejando havia tempos. Agora, me dedico apenas ao conteúdo de gastronomia – como crítico do Paladar, com este blog, participando ativamente do Cozinha do Brasil e do Prêmio Paladar, e com outros projetos pessoais que relatarei aqui, à medida que forem se confirmando. Deixo minhas funções executivas no Estadão, onde supervisionava vários cadernos, para me concentrar naquilo que, naqueles tais dez anos atrás, eu imaginava que seria apenas um jeito de me divertir mais com o trabalho. E, olhando em retrospectiva, foi uma trajetória muito boa de ser vivida. Ficou um legado.

Para quem me lê, não muda nada – ou melhor, muda, para melhor, espero que concordem. As postagens neste blog passam a ser mais frequentes e a resenha semanal prossegue normalmente, sem contar outras surpresas que virão em 2013. E o Paladar continua bem nutrido e forte, informando de maneira cada vez mais diversificada, em várias plataformas.

Tudo bem que não é uma despedida, muito pelo contrário, é só um ligeiro balanço de dez anos. E nem quero me estender demais (já me estendi!), sob risco de parecer aqueles cineastas brasileiros dos anos 70, que, tentando tratar de todos os temas possíveis num único filme, não falavam da nada direito. Mas acho que eu precisava aproveitar para fazer alguns agradecimentos.

À minha mulher e à minha filha, que foram (e vão) comigo a tantos restaurantes, que tanto me apoiaram, que tanto compreenderam as minhas ausências em jornadas pesadas de trabalho, eventos, viagens. Ao meu amigo Ilan, pela parceria de tantos anos (e que segue em frente, obviamente) e por ter inventado, um dia, que eu deveria ser crítico. À Patricia Ferraz, Luiz Horta e à equipe do Paladar, que continuam firmes na produção do melhor jornalismo de gastronomia do País (e a todos do Divirta-se, do Link, do Casa, do Estadinho, do Viagem, do Estadão.edu). À direção do Grupo Estado. Aos amigos/gourmets, aos gourmets/amigos, que compartilharam comigo tantas experiências inspiradoras (Jacques Trefois, Maurizio Remmert e muitos outros mais). Aos chefs e profissionais da restauração, que eu sempre respeitei e que sempre me respeitaram, tendo eu os conhecido pessoalmente, ou não – e que sempre participaram com brilho e entusiasmo do Cozinha do Brasil, por um lado, e com muito espírito esportivo, por outro, do Prêmio Paladar.

E especialmente a todos que me leram e me leem (e não só isso: compareceram a palestras, me ouviram na Rádio Estadão etc). Aos que concordam, aos que  discordam. São vocês é que dão sentido a toda essa história (embora eu também me divirta, é claro).

Dez anos, o juiz apitou. Fim do primeiro tempo, começo do segundo. Como diz aquele locutor de futebol, o tempo passa. Como diz aquele comentarista de arbitragens, segue o jogo.