Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Carmen, desta vez, abrasileirada

28 junho 2012 | 00:02 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 28/6/2012

Certa vez, questionada sobre seus dotes como intérprete, Carmen Miranda respondeu assim: “Não, eu não tenho voz nenhuma. Eu tenho é bossa”. A passagem, narrada na biografia escrita por Ruy Castro, obviamente contém doses de exagero e autoironia. Da mesma forma que seria excessivo dizer que este Carmen Di Granato, aberto em maio na Vila Madalena, vale só pelas bossas – do cardápio de sotaque brasileiro, da atmosfera irreverente. Há boas ideias e bons pratos.

O restaurante pertence a Cássio Machado, que ganhou fama em lugares como o Di Bistrot e o B & B e, hoje, comanda estabelecimentos como o Rex e o Ringue. O nome da casa não é apenas uma alusão à cantora e atriz luso-brasileira, mas uma referência à maneira como ela foi retratada pelo artista plástico Ivald Granato, já que suas obras é que dão o tom do ambiente. Uma decoração meio carregada, convenhamos, mas com bom humor.

Na composição do cardápio, o restaurateur criou uma leitura de pratos clássicos e triviais com olhar de brasilianista. Ou, quem sabe, retomou, de forma casual, pontos de vista dos chefs europeus que chegaram aqui anos atrás e adaptaram receitas para os produtos nacionais. E, assim, bolinhos com jeito de cougères viraram nuvens de queijo serra da canastra (R$ 25); a paella ressurgiu como arroz tupiniquim com frutos do mar e pequi; o gigot de cordeiro (R$ 45), em vez de feijão branco, ganhou feijão-de-corda como guarnição; e assim vai.

De vários pratos provados, minha seleção foi a seguinte. Pingos de galinha caipira (R$ 19), uma miniversão da coxa creme. Moqueca baiana, com camarões, badejo e mexilhões (R$ 90, para dois). Confit de galinha caipira com molho de pimenta biquinho (R$ 39,90), com pamonha de acompanhamento. Uma bossa que, no entanto, não deu tão certo com sobremesas, como o pudim de tapioca com calda dulcíssima de caju (R$ 7,50, no almoço) ou a tapioca com cocada, doce de abóbora e goiabada (R$ 15), meio desequilibrada. No almoço da semana, os preços são mais camaradas.

Cássio Machado faz as coisas ao seu estilo, junta as referências a seu modo, cria universos particulares. O que é uma virtude, num cenário onde parece sempre mais fácil clonar algum italiano de sucesso ou seguir o último modismo. O outro lado dessa moeda, entretanto, é muitas vezes abrir mão do rigor em benefício da personalidade, da atitude. Um aspecto que evoca a memória recente de outro de seus empreendimentos, o Farofa Paulista, de vida breve, que começou bem, mas logo perdeu a regularidade.

No caso do Carmen di Granato, essa faceta parece se manifestar no serviço, à vontade demais, por vezes avoado. E propenso a acertar desavenças ao vivo, na frente dos clientes, que não precisam ser plateia de divergências ou de carraspanas. Isso se resolve longe da mesa. Até em respeito ao legado da artista: afinal, dona Carmen está ali, de olho em tudo.

Por que este restaurante? Porque é uma novidade interessante.

Vale? A refeição completa, sem bebida, fica abaixo dos R$ 100. No almoço da semana, executivo a partir de R$ 21,50. Vale.

Carmen di Granato – Brazilian Lounge R. Aspicuelta, 268, V. Madalena, 2362-5817.

 

 

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