Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Chegue antes que a fila comece

22 dezembro 2008 | 16:25 por admin

Publicado no Paladar 13/11/2008

Luiz Américo Camargo

Eu fui ao Due Cuochi Cucina e consegui jantar sem fazer reserva nem pegar fila. Não acredita? Pois aconteceu de verdade, na recém-inaugurada unidade do Shopping Cidade Jardim. Pensei em ir ao almoço de domingo, mas, ao telefonar, descobri que já havia espera – isso, pouco depois de 12h30.

Deixei então para terça à noite, com a seguinte tática: chegar na hora de abertura, 19h30. Ou será que, à maneira dos shows de rock, já encontraria clientes dormindo na entrada, enrolados em sleeping bags? Sem fãs abnegados à vista, eu garanti assim meu lugar. Mas logo depois o salão já começou a encher.

O que transformou o Due Cuochi num fenômeno de tal magnitude, alçando-o à condição de espécie de Famiglia Mancini do eixo Jardins/Itaim, onde a disputa por reservas e a espera já viraram folclore? Difícil definir (e, se houvesse uma fórmula, uma equação exata, seus donos certamente já teriam multiplicado o conceito por outros pontos da cidade). Recapitulemos: a casa da R. Manuel Guedes caiu nas graças de uma faixa de público ávida por restaurantes, e virou, enfim, moda; ganhou vários prêmios; e, claro, impõe-se pela comida, sob a supervisão de Paulo Barroso de Barros, um chef que entrega o que promete. Com pratos bem executados, na linha tratoria refinada, um cardápio descomplicado, produtos de boa qualidade e notável eficiência na cozinha (experimente observar, pelo vidro, o ritmo preciso da brigada), o restaurante é hoje o italiano de maior sucesso na cidade.

E como é o Due Cuochi Jardim, como está sendo chamado? Diferente no ambiente, com menos aperto no espaço interno e um janelão com vista para a Marginal Pinheiros, e semelhante no cardápio, onde apenas alguns poucos itens diferem do menu da matriz. Quem cuida da cozinha, no novo restaurante, é Ivo Lopes (Wagner Resende, ex-Lucca, ficou no Itaim). Eu provei duas entradas, o raviolone de gema de ovo caipira (R$ 27) e o nhoque de semolina ao queijo taleggio (R$ 18,50), que, de fato, pareciam bastante com as da casa-mãe. Era hora, então, de conferir os pratos.

Por volta da 20h40, já se formava uma pequena fila. E eu aguardava meu pedido, o peixe do dia em crosta de ervas com purê de pupunha (R$ 58), exclusividade do Cidade Jardim, segundo o garçom. Sentado a alguns metros da cozinha envidraçada, vi um prato que imaginei parecido com o meu parado na boqueta, à espera de um garçom expedito. “Será que é o meu?”, imaginei, me
sentindo ridiculamente paranóico. E o peixe continuava ali, solitário.

Enquanto isso, dava para perceber a ansiedade de quem esperava no bar, de onde casais monitoravam qual dos comensais sentados já tomava o café, qual aguardava a conta. Voltando então ao prato na boqueta: era mesmo o meu, que não tinha sido servido porque o tortelone de queijo de cabra ao pesto (R$ 39), também pedido em minha mesa, não havia ficado pronto. O robalo estava bom, obrigado, com uma crosta salgada na medida certa, guarnecido por um purê de pupunha rústico, pedaçudo – mas, como eu previa, já um pouco frio. A massa, delicada, com um pesto equilibrado, também estava abaixo da temperatura ideal. Nesse aspecto, portanto, o filhote ainda não se parece com a mãe.

Depois de pagar a conta e deixar a mesa, uma passada no banheiro. E adivinhe? Mais espera. Aí também já era demais. Fui embora, sob os olhares satisfeitos de quem bebia e beliscava no bar: a fila ia andar.

Due Cuochi

Shopping Cidade Jardim, Av. Magalhães Castro, 12.000, 3º piso, 3758-2731

12h/0h (dom.,12h/20h)

Cartões: todos

Cardápio: italiano, estilo ‘satisfação garantida’.

Avaliação: Recomendado para quem é fã da matriz, no Itaim, e não tem paciência para esperas longas demais.

Ficou com água na boca?