Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Comentarista, jurado, amigo

13 dezembro 2014 | 21:06 por Luiz Américo Camargo

O princípio foi gostar de comida e de restaurantes. Eu me arriscava pelos mais variados tipos de lugares, sem muito método. Cozinhava, experimentava ingredientes. Estudava, xeretava, buscava referências. Queria me divertir, aumentar meu repertório, me esmerar num tema que me parecia cada vez mais interessante. Ter me tornado um jornalista de gastronomia foi uma sorte: pude transformar um prazer pessoal numa profissão. Contudo, mais do que ter passado os últimos onze anos comendo, bebendo e aprendendo (para poder contar aos leitores), o que trago de mais valioso nessa trajetória está nas amizades que fiz. Camaradas de mesa, de receitas, de pães, de vinhos, que acabaram se tornando companheiros na vida. O Flávio Siqueira Cavalcanti foi um deles.

Conheci o Flávio aqui no blog, anos atrás, “virtualmente”. Ele sempre comentava meus posts, mas tinha uma maneira especial de fazê-lo. Sempre com um texto instigante, muito bem construído. Usava a erudição de grande advogado mas não soava esnobe. Deixava em evidência um imenso apetite, uma curiosidade insaciável, e uma abordagem sempre aventureira sobre a comida, fosse para novos pratos, fosse diante de novas ideias e opiniões diversas. Não por acaso, ele  acabou virando “cobaia do Prêmio Paladar”: o primeiro jurado-leitor, o precursor de um modelo interativo que acabou se tornando uma das marcas premiação.

Lembro que, depois de ter lido mais um estimulante comentário seu num post de 2009, eu pedi seus contatos. Telefonei e fiz o convite: “Topa passar um mês comendo, com um cartão de crédito fornecido pelo Paladar, comparando pratos, ajudando a escolher os vencedores do Prêmio?”. Ele aceitou na hora e logo marcamos uma conversa para explicar melhor o método, os critérios… Ali eu ganhei um novo amigo, mais do que um excelente jurado. Tempos depois, ele me diria: “Achei que você fosse meio biruta. Ligar para alguém que nunca havia encontrado e fazer uma proposta dessas? Perguntar para um cara que adora comer se ele aceitaria fazer parte desse júri é mais ou menos como perguntar: quer ganhar na loteria?”. Flávio se definia como um comilão que honrava as origens, “cearense com alemão”, capaz de traçar com igual paixão uma buchada e alguma especialidade da haute cuisine.

Flávio cumpriu com brilho sua missão. Com espírito de glutão e rigor de analista, ajudou a apontar os destaque gastronômicos de SP em 2009. Logo depois, eu soube: deu conta do recado atravessando problemas graves com a saúde de sua mãe. Tornou-se um chapa, uma figura muito estimada pelo Paladar. No ano seguinte, adotamos de vez a participação de “leitores” no júri (na origem, a tropa era composta por membros da redação e especialistas convidados), e chamamos o Flávio para repetir a empreitada. Ele mais uma vez foi importantíssimo. De novo, por uma trágica coincidência, devorou pratos e articulou opiniões enfrentando outro terrível desafio pessoal: ele havia acabado de descobrir um câncer. Desde então, Flávio vinha batalhando bravamente contra a doença. E manteve o apetite. Chegou a criar um blog para tratar do assunto, o http://tropecosdeumgourmet.com

Entre idas e vindas de hospitais e tratamentos desgastantes, ele seguiu adiante. Não me lembro de ter falado com o Flávio (pessoalmente, por escrito ou por telefone) e de ter ouvido reclamações e lamentos – e ele teria todo direito. Sua perserverança era impressionante, e tenho certeza que, para tanto, o apoio da Renata, sua mulher, foi fundamental. Participou do Prêmio – ele adorava – esporadicamente, em blitze (as categorias de júri-relâmpago). E, dentro do possível, sempre dava um jeito de almoçar ou jantar em restaurantes.

Recebi hoje a notícia de sua morte, uma mensagem da admirável e incansável Renata. Foram quatro anos de luta, muitos meses de superação, de afirmação cotidiana de apreço à vida. Uma notícia triste, uma perda sentida. Flávio, além de um parceiro de refeições e resenhas, segue como uma referência para mim. Nesses últimos anos, em mais de uma ocasião, diante de algumas grandes dificuldades, eu me inspirei em sua gana, em seu bom humor. Seguirá como um exemplo. Ficará na memória como um amigo – como eu disse, o patrimônio mais valioso desses anos escrevendo sobre comida.