Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Confira o número e escolha

15 novembro 2012 | 19:25 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 15/11/2012

O casarão que abriga o China Lake, no Alto da Boa Vista, parece ter espaço de sobra, em excesso.  Mas seus salões, ao todo para 300 pessoas, frequentemente ficam cheios, em particular no fim de semana.  São membros da colônia chinesa, em geral, que se misturam aos descendentes de alemães que predominam no bairro, um recorte mais tranquilo e arborizado de Santo Amaro.  Tudo isso num ambiente que, se um dia se quis solene, com seus vasos de porcelana e estátuas de guerreiros, acabou enveredando para a informalidade.  Um tom estabelecido, quem sabe, pelo próprio serviço, do estacionamento “cortesia” à afabilidade dos garçons.

Na genealogia de restaurantes chineses da cidade, o China Lake não é antigo como o Taizan, fundado em 1970 (ou, mais ainda, como o extinto Kin Kon, de 1960).  Nem faz parte de uma leva migratória mais recente (tal qual o Rong He, de 2006).  Mas é integrante de uma safra de casas nascidas entre os anos 80/90 (Ton Hoi, Hi Pin Shan, Golden Plaza, etc.), que buscaram bairros afastados do enclave oriental da cidade, o eixo Liberdade-Aclimação.

A cozinha do chef Paulo Hu é partidária de uma autodeclarada orientação culinária de Xangai, no leste da China – de onde vem a inspiração para boas pedidas da casa, como os rolinhos primavera (R$ 24) e o arroz de bacalhau (R$ 38), também frito, que cai ainda melhor se comido quentíssimo.  Porém, à maneira do que acontece em especial com os restaurantes italianos, é difícil, quem sabe inviável, levar o regionalismo à ortodoxia total.  E o China Lake, com seu menu extenso, trilíngue em português-inglês-mandarim, com sugestões numeradas do 1 ao 128, também avança por outras regiões e tradições.  Inclusive a do pato à pequim (ou pato laqueado, como está no cardápio, de R$ 118 a R$ 165, para até quatro pessoas), uma receita que já virou sinônimo de prato nacional chinês.

A execução e o serviço são feitos ao estilo clássico.  Cebolinha, molho de missô e, claro, o pato – mas só a pele crocante – chegam à mesa para serem enrolados por finíssimas panquecas heye bing, preparadas no vapor.  A carne desfiada da ave é apresentada num segundo tempo, ficando seu caldo para a terceira etapa.  A propósito, este é um dos pouquíssimos lugares da cidade onde o pato à pequim pode ser pedido sem reserva antecipada, geralmente de um dia (no Hi Pin Shan da V.  Olímpia também é possível, desde que se telefone antes).

Nem tudo tem a mesma regularidade.  Das opções de crustáceos, os camarões com molho apimentado (R$ 71), com suas notas de gengibre, estão entre as mais apetitosas.  Assim como na categoria “massas” os dumplings impressionam melhor do que os noodles.  Mas a banana caramelada (R$ 28) funciona bem para fechar a refeição: doçura sem muitos pudores, em sintonia com fritos, laqueados e afins.

Por que este restaurante? Fazia tempo que eu não resenhava um chinês; e porque não me empolguei com algumas casas abertas recentemente.

Vale? Os pratos não são baratos como na Liberdade, mas são compartilháveis.  Come-se abaixo dos R$ 100.  Vale o passeio.

China Lake. R.  Marechal Deodoro, 525, Alto da Boa Vista, 5524-7921.

Ficou com água na boca?