Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Conheça aquela do Português?

10 maio 2012 | 19:03 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 10/5/2012

Eu fui ao Brasil a Gosto para visitar Portugal. É curioso pensar a respeito. O restaurante que apresenta nosso País de maneira quase cartográfica, explorando pratos regionais, fazendo um inventário afetivo de tradições locais, se voltou desta vez para a antiga metrópole. Entretanto, no menu dedicado à cozinha portuguesa, válido até o fim de junho, a chef Ana Luiza Trajano não se limita a reproduzir receitas alentejanas, lisboetas e afins, mas aproveita para rever as influências lusitanas à nossa mesa.

O novo menu foi concebido em parceria com o português Vítor Sobral, chef da Tasca da Esquina. E, claramente, não houve intenção de provocar estranhamento, partir para ingredientes menos conhecidos, e sim destacar afinidades. Eu gostei da seleção de receitas, embora achasse que o petisco da lista não precisava ser o conhecidíssimo bolinho de bacalhau – uma porção muito boa, ainda que cara (R$ 44, com nove unidades). Mas vamos aos pratos.

As sardinhas portuguesas na salmoura (R$ 48), apresentadas numa lata, fazem um bom dueto com os legumes crocantes em vinagrete de coentro e hortelã – pena que o peixe estivesse com um ponto a mais de sal. A açorda de camarão (R$ 92), por sua vez, leva algo de azeite de dendê e leite de coco, como a deixar evidentes as conexões com o vatapá. Mas meu prato preferido foi a paleta de porco (R$ 68), assada a baixa temperatura, com molho de melaço, quiabo e purê de abóbora, muito macia e saborosa. A sobremesa, por fim, é a encharcada (feita, adivinhe, com gemas e açúcar), com pavê de nata e maracujá (R$ 26).

O grande desafio do Brasil a Gosto, ao longo do tempo – e aqui entra um ponto de vista muito pessoal – , tem sido converter boas proposições em bons pratos. Especialmente nos momentos iniciais (a casa abriu em 2006), pairava a sensação de que a mensagem, digamos, era importante; mas a comida carecia de mais brilho, de mais afirmação. Faltava, então, transformar em restaurante de fato algo que era mais um conceito, uma visão de país. Um processo que vem se aprimorando, temporada a temporada. Como se o apetite, enfim, tivesse sobrepujado a intenção estética.

Digo isso não só pelo menu Portugal. Mas pelo fato de, hoje, a cozinha funcionar com desenvoltura, soltando pratos bons de sabor, bem resolvidos. Começando pelo couvert, com pães variados, biscoito de polvilho, chips de tubérculos, passando por coisas simples como a porção mista de pastéis e as “boias” do dia, as sugestões de prato feito, finalizando com o café coado na mesa. Algo que se reflete no serviço, mais hospitaleiro e profissional – e menos descolado. Um Brasil que já não precisa fazer tanta força para parecer brasileiro.

Por que este restaurante? Por causa do novo menu temático, que será servido até 18 de junho; e para revisitar um restaurante que, ao longo do tempo, tem evoluído na cozinha.

Vale? O menu Portugal não é barato, especialmente as entradas. Vale para conhecer – e, no caso de itens como os bolinhos e a própria açorda, dá até para compartilhar. Os pratos podem ser pedidos em separado ou como degustação (R$ 140).

Ficou com água na boca?