Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Culpa do sistema

21 novembro 2009 | 00:41 por Luiz Américo Camargo

Até não muito tempo atrás, numa época em que os conflitos ideológicos eram mais aguçados, era comum botar a culpa de quase tudo nele, o sistema.

O sistema produzia miséria, oprimia os impulsos vitais e a espontaneidade popular, gerava mais privilégios do que felicidade.

As coisas se modificaram um pouco nas últimas décadas – ao menos em alguns aspectos. Os conflitos mudaram de contexto, ilusões se perderam (outras se criaram), avançamos ali, recuamos acolá… E eis que o sistema volta como culpado. Agora, ele é o vilão das contas indevidas nos restaurantes.

Quem é o sistema? Aquele conjunto de forças que junta o capital internacional, o sistema financeiro, o Pentágono, a CIA? Ou um software de gestão de restaurantes, equivalente eletrônico do português de lápis na orelha que fazia adições e subtrações com a velocidade de uma calculadora? Não se sabe. Mas ele é onipresente e invisível.

O couvert foi incluído por engano? Foi o sistema. A nota fiscal saiu com o valor errado? Sim, ele também. O valet entrou na conta total e teve a incidência do serviço? Adivinhe….

Ontem eu almocei num lugar recém-aberto, depois conto melhor. Pedi uma meia-porção de massa (eu e as tais metades…), uma carne etc etc. Na hora da conta, seguiu-se um tortuoso caminho. Eles puseram o preço integral do prato, somaram tudo e, no fim dos cálculos, descontaram 25% do item pedido pela metade (ou seja: a meia-dose de massa custou 75% do valor completo). Porém, o pior é que os 10% do serviço foram calculados sobre o preço total, não sobre o da porção pequena (deu para entender?).

Reclamei, e o que ouvi? “É culpa do sistema”.

Senhores frequentadores de restaurantes, vistam camisas de Che Guevara, recuperem seus jeans velhos, escrevam palavras de ordem em cardápios e cartas de vinho. Vamos protestar contra o sistema.

Ficou com água na boca?