Paladar

Cumbucas como no século passado

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Cumbucas como no século passado

28 agosto 2013 | 22:40 por Luiz Américo Camargo

Até onde me conheço por gente, a velha coleção de uísques tamanho família nunca saiu da vitrine do Star City, em Santa Cecília. Meio empoeiradas, com rótulos como Haig, Teacher’s, White Horse, as garrafas gigantes faziam parte da galeria de imagens que mais me impressionavam na região. Na minha percepção infantil, eram quase um ícone turístico, tal como as lagostas de bronze do chafariz da Praça Júlio Mesquita. Ou a estátua do índio e do tamanduá na Praça Marechal Deodoro. Até onde minha memória de nativo alcança, o Star City, que acabou de fazer 60 anos, parece que sempre esteve lá. E sempre serviu feijoada.

O estabelecimento foi fundado por José Quintino Vieira, em 1953, e permanece sob o comando de seus filhos. A casa sobreviveu à decadência do entorno e superou até as demoradas obras do metrô, entre os anos 1970 e 80, quando muitos comerciantes dos arredores não aguentaram tanto tempo de portas fechadas. E segue adiante, sem hostess nem glamour. A bem da verdade, no tabuleiro da atual restauração paulistana parece não haver encaixe para uma casa que exibe garrafões de scotch na entrada; não atualiza a decoração há décadas; e mantém um cardápio com dezenas de itens, entre eles steak diana e filé à cubana, camarões newburg, risotos (o antigo arroz de forno), massas gratinadas. Mas o Star City continua lá. Assim como sua feijoada, objeto principal deste texto.

Star City. Clássico da região central, serve feijoada com alma. FOTO: Evelson de Freitas/Estadão

A feijoada do Star City (R$ 57,90) chega à mesa na cumbuca, com tudo junto: feijão, linguiças, costela, carne-seca, orelha, pé, língua… Seu caldo é grosso e brilhante, com as notas de apuro que só mesmo a feijoada completa, com bastante colágeno, pode proporcionar. Mas é importante lembrar que ela é precedida por um aromático caldinho de feijão, com sutil toque de cachaça, e uma pururuca decente (o bacon, nem tanto). E guarnecida por ótimas mandiocas fritas e bananas à milanesa, além de bisteca, couve levemente refogada e laranja bem doce. Comedimento, não há: os veteranos garçons querem o tempo todo renovar a dose, trazer uma remessa fumegante da cozinha.

Voltando ao cozido, então. A impressão é de que não se trata simplesmente de um agrupamento de pertences suínos e feijão, entregues à sorte e aos caprichos do caldeirão. Trata-se de uma feijoada com partido, com posicionamento: ela é temperada, dirigida. Defende um estilo, um jeito de preparar – que, segundo o restaurante, só os membros da família conhecem. Tirante o que há de fantasioso no processo, é um prato com alma, enfim, servido num restaurante certamente fora do padrão Jardins, provavelmente fora do século 21. Também não é bom?

Por que este restaurante?
Por que é um clássico da região central que chegou aos 60 anos. E por causa de sua feijoada, servida todos os dias, no almoço e no jantar, feita à maneira tradicional.

Vale?
É uma viagem no passado, a um outro estilo de restauração. Somando a feijoada completa, mais bebida e sobremesa, paga-se em torno de R$ 80 por cabeça. Vale conhecer.

SERVIÇO – Star City
R. Frederico Abranches, 453, Santa Cecília
Tel.: 3331-2044
Horário de funcionamento: 11h/23h (dom., 11h/17h; fecha 2ª)
Cc.: todos
Estac.: conveniado, na mesma rua, nº 388, ou na R. Martim Francisco, 95

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 29/8/2013

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