Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

De ‘boteco’ a simplesmente bistrô

30 junho 2011 | 16:31 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 30/6

Quando abriu o Le Buteque, em 2009, o chef Erick Jacquin estava implantando uma espécie de versão prêt-à-porter de sua famosa La Brasserie. Num espaço mais descontraído, sem ares de haute cuisine, a proposta era apresentar versões tradicionais de pratos como steak tartare, confit de pato e alguns itens mais triviais, não necessariamente franceses, com preços mais camaradas. Quase como um bistrô, em versão juvenil e ambientado nos Jardins. Até aí, tudo certo.

Porém, ainda que servindo boas receitas e atraindo um público mais diversificado, a impressão é que o Le Buteque se colocava às vezes como um elemento de desarmonia na carreira do chef. Por um lado, a casa mostrava oscilações e algumas dificuldades em convencer pela vocação bistrotière; por outro, parecia impedir que o cozinheiro se dedicasse mais à casa-mãe. Na dúvida, Erick Jacquin decidiu cuidar só da brasserie que leva seu nome e já não é mais sócio nem supervisiona os fogões do Le Buteque. Mas saiu da cozinha deixando-a razoavelmente arrumada.

A nova chef, Raquel Codreanschi, é uma jovem profissional formada pelo próprio Jacquin. Em 2009, ela ganhou o Prêmio Paladar Novos Talentos, preparando um prato que, depois, foi incorporado ao cardápio do Le Buteque (é o cuscuz paulista da Rachel, R$ 22, leve e apetitoso, servido com salada verde). Rigorosa no trato dos pontos de cocção e com bom senso de equilíbrio, Rachel manteve o cardápio, de forma geral, e demonstra ter um perfil adequado para a condução do bistrô: neste momento, ela é mais uma intérprete fiel à partitura do que alguém com veleidades de compositor. E acerta preparando pratos simples e de sabor preciso, como o entrecôte com batatas (R$ 41) e a lula chapeada com legumes à provençal (R$ 31).

Da minha parte, sempre achei o Le Buteque, com seu ambiente moderninho e um tanto árido, um endereço algo incompleto, quem sabe de personalidade indefinida. Não conseguia ser aconchegante como um bistrô nem alcançava a informalidade de uma lanchonete. Era (e ainda é) mais ruidoso do que necessariamente animado e, especialmente no início, me parecia caro – esta, uma impressão que foi atenuada, já que a casa não tem remarcado os preços.

Agora, nesta nova fase, o restaurante parece estar a caminho de encontrar uma identidade, mais despretensiosa e sem as expectativas gastronômicas que inevitavelmente se criavam pela sombra de Erick Jacquin – que, no “boteco”, sempre foi mais restaurateur do que cozinheiro. O lugar continua, é verdade, convidando mais a uma refeição rápida (quando não apressada) do que a um bom jantar. Mas com comida benfeita e, agora, regras do jogo mais claras.

Por que este restaurante?
Porque ele tem uma nova chef e, ao que parece, está consolidando uma nova identidade, pós-Erick Jacquin.

Vale?
O menu-executivo custa R$ 42 (aos sábados, R$ 48). Pedindo à la carte, entretanto, gasta-se cerca de R$ 80 por pessoa, sem vinho. Não é pouco, mas anda difícil fazer uma refeição (mesmo informal) por muito menos. Mas já que eu preciso me posicionar, vamos lá: no fim das contas, vale.

Onde fica:
R. Haddock Lobo, 1.416, J. Paulista, 3083-3737.

Ficou com água na boca?