Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

De volta

02 agosto 2009 | 17:39 por Luiz Américo Camargo

Eu confesso: viajei a Buenos Aires nas férias. Mas não peguei gripe. Tirando os próprios brasileiros em filas de check in ou nas esteiras de bagagem – e sem contar os funcionários argentinos do aeroporto de Ezeiza – também quase não vi ninguém de máscara cirúrgica. Clima de pânico, em resumo, não havia. Mas prevaleciam os cuidados, entre os quais a lavagem frequente das mãos e o uso do onipresente gel de álcool.

Foi uma viagem com muitas caminhadas pelas ruas e a preferência por lugares ao ar livre. As exceções, claro, foram as visitas aos restaurantes. Mas sem nunca descuidar da higiene. E com a felicidade de atestar que, com vinho (em geral, meias-garrafas), estando em três, pagamos contas médias de 240 pesos. Ou R$ 120, 40 R$ por cabeça.

Faço aqui então um apanhado dos destaques desses poucos dias, quase sempre de temperatura baixa e céu azul. Não fui a todos os lugares que queria, por limitações principalmente de tempo e eventuais imprevistos. Mas gostei bastante do que relaciono a seguir.

El Pobre Luís – Fui principalmente pelas mollejas, e não me arrependi. Assador e açougueiro, Luís Acuña escolhe timos como nunca vi igual (minha mulher, que não se encanta por internos, provou; já minha filha, não só provou como adorou). Suculentas, com uma capa crocante, elas talvez sejam o ápice deste restaurante simpático e algo folclórico, com suas camisas de clube e fotos alusivas ao futebol. Mas há que se dizer que as costillas de lomo, o filé mignon com osso, estavam também exuberantes. Arribeños 2393, Belgrano.

Sucre – O restaurante do chef Fernando Trocca é muito bonito e bastante profissional. Mas se impõe também pela comida. Dois pratos em particular ficaram na memória. O salmon blanco (que, apesar do nome, é um parente da merluza) com crosta crocante de azeitonas pretas, servido com um purê de batatas rústico e amêndoas. E a bondiola (um corte do porco, a chamada copa-lombo, que bem poderia receber mais atenção dos restaurantes daqui) assada, servida com batata-doce. Pedi uma sobremesa com certo ceticismo (ando meio entediado com a fruit de la passion), e fui surpreendido. O chiboust de maracujá com creme de coco e sopa de lima estava equilibrado, leve, instigante. Sucre 676, Blegrano.

La Cabrera – É um daqueles lugares que se transformaram em fenômeno de sucesso. Está cheio noite e dia, e se trata mesmo de uma parrilla muito competente. A carne é muito bem churrasqueada (comemos um ojo de bife suculento, com a gordura já bem derretida) e as guarnições são ótimas. Mas o serviço foi o que mais impressionou. Eficiente e cordial, o garçom ainda tomou ele mesmo algumas decisões. Pediu em meia-porção o que achava excessivo, cancelou um pedido que, a seu ver, só encareceria a conta. É claro que ganhou uma bela gorjeta. Gostaria de ver mais profissionais como este aqui em nossa cidade. Cabrera 5099, Palermo.

Fervor – Num primeiro momento, não esperava muito deste restaurante espaçoso, com um cardápio que inclui de parrilla a massas. Foi apenas uma conveniência de endereço, mais do que uma escolha. Mas ao sentar e receber do garçom o anúncios dos peixes frescos do dia, preparados na brasa apenas com azeite e sal, me animei. Pedimos cherne e merluza, e ficamos felizes com a escolha. Úmidos por dentro, dourados por fora, eram tudo aquilo que eu queria ter nos restaurantes especializados de SP: pescados feitos com simplicidade, valorizando o produto, e a bom preço (custaram, cada filezão, o equivalente a R$ 25). Posadas 1519, Recoleta.

Mas também tomei sorvetes bons (Un Altra Volta), comi empanadas apetitosas (Sanjuanino) e provei uma milanesa decente (Mancini, na Av. Libertad). E constatei que, ainda que o espresso do Tortoni continue fraquito, o majestoso café é um dos lugares mais impactantes de Buenos Aires. Tivessem posto na xícara uma bebida dessas de cafeteira elétrica, eu teria sorvido com o mesmo encantamento de sempre.