Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Dois menus, vários pratos triviais

17 maio 2012 | 23:43 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 17/5/2012

Existe um particular senso de harmonia neste novo Jiquitaia, aberto há pouco mais de dois meses na Consolação. O ambiente é despojado como um bar arrumadinho; que, por sua vez, combina com o serviço hospitaleiro e ágil, sem ser apressado; que, por fim e na soma geral, funcionam como moldura adequada para uma comida bem feita e de mensagem descomplicada. A autodefinição da casa é interessante: “Cozinha variada de influência brasileira”. O que, na prática, se traduz num repertório inspirado no cotidiano, com um ou outro lampejo mais autoral.

Quem comanda o restaurante são dois jovens irmãos, o chef Marcelo Bastos (que, até recentemente, trabalhou no Porto Rubaiyat) e Carolina Bastos, que cuida do salão. O esquema é bastante objetivo: menus de R$ 30 no almoço da semana, menus de R$ 50 à noite e aos sábados, ambos com entrada, prato e sobremesa. Alguns itens mudam conforme a disponibilidade de ingredientes, outros são fixos e têm dia certo. Como a costelinha de porco com mandioca às segundas, o barreado às quartas, a moqueca às sextas, entre outros. Há sempre uma alternativa vegetariana, alguma massa, assim como alguma sugestão com peixe – igualmente variável, dependendo do que estiver mais fresco. Tudo o que você pode comer num determinado dia, portanto, cabe numa folha de papel.

Gostei de praticamente tudo que provei (embora as sobremesas ainda não estejam no mesmo nível), e creio que o chef Bastos demonstra equilíbrio entre proposta e resultado: tem clareza no conceito e executa com desenvoltura pratos simples e com sabores bem definidos. Como o peixe (no caso, tainha) marinado, quase como um ceviche, com batata doce; o queijo coalho chapeado, com pimenta biquinho; a moqueca à baiana (feita com badejo), precisa no tempero e cuidadosa no arroz, na farofa; um bem bolado peito de pato (francamente rosado, como se deve) guarnecido por arroz de pato no tucupi; e um dos picadinhos mais honestos provados nos últimos tempos. Um repertório espontaneamente brasileiro, sem empunhar bandeiras e com o entendimento de que um prato de nhoque ou de ossobuco podem ser tão paulistanos quanto um virado.

Enquanto escrevo, até pondero se não estou me entusiasmando além da conta com um restaurante despretensioso. Seria sinal dos tempos, num momento em que há muitas coisas caras, muitas novidades de pouca personalidade? Talvez exista mesmo esse contraste. Mas chego à conclusão de que esse tipo de estabelecimento é importante na composição de um cenário gastronômico diverso e saudável. Num universo no qual, por um lado, predominam muitas iniciativas de nível médio (mas preço alto) e, por outro, há carência de boas opções triviais, é muito positivo que alguém se esforce para cozinhar bem servindo comida simples. Isso ajuda a criar massa crítica (com ou sem trocadilho, pode escolher) e a elevar o patamar geral.

Por que este restaurante? Porque é uma novidade interessante.
Vale? Pelo preço dos menus e, em especial pela honestidade da comida, vale. Considerando, obviamente, que se trata de uma proposta menos ambiciosa, para almoços e jantares mais informais.

Jiquitaia – R. Antonio Carlos, 268, Consolação, 3262-2366

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