Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Em busca de um novo Mocotó

03 maio 2012 | 19:04 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 3/5/2012

Confesso que, cada vez que entro num restaurante de cozinha nordestina, alimento a esperança de encontrar um novo Mocotó.  Não por preguiça de ir à Vila Medeiros. É apenas por considerar a casa do chef Rodrigo Oliveira um exemplo benfazejo para nosso cenário gastronômico.

Não há tantos lugares que se devotam a imitar o Gero e o Due Cuochi?  Por que, então, não se espelhar no estabelecimento de bairro que virou referência em culinária brasileira, honrando a tradição, modernizando procedimentos, oferecendo comida de qualidade a preços baixos?

Nos dois restaurantes de que trato a seguir talvez não haja influências diretas do Mocotó.  Afinal, as Casas do Norte e afins estão aí há anos.  Mas, a cada refeição, me pego renovando expectativas: será que é aqui?

Do Sertão. Este prosaico bar/restaurante aberto em 2008 no Bexiga tem jeito de boteco arrumadinho e fica aberto até alta madrugada.  Os donos são do Ceará e propõem receitas genericamente sertanejas, além de pratos triviais.  A cozinha é pequena e é operada por uma, duas pessoas, no máximo.

Das várias coisas que provei (em porções generosas, com preços entre R$ 20 e R$ 40), gostei em especial do jabá desfiado com mandioca e do carneiro frito.  O escondidinho, por outro lado, carrega demais no requeijão, quase dominando o prato.  No entanto, na hora do almoço, uma olhada nas mesas em volta revela o predomínio da picanha com batata frita.

Perguntei ao garçom o que havia de mais cearense no cardápio.  Em dúvida, ele falou da galinha ao molho, da receita do baião de dois…  Mas cravou no refrigerante: a cajuína, de Juazeiro do Norte.

Acarajé. O restaurante funciona em Guarulhos há 16 anos e é enorme, com ares de churrascaria popular, barulhenta e sem conforto.  Apesar do nome, não tem orientação baiana, embora o famoso bolinho figure no menu.  Nos fins de semana, especialmente, ele atrai grandes mesas familiares, a maioria, moradores locais, e as esperas são frequentes.  “Quer anotar meu nome?”, perguntei.  “Não, fica na fila”, disse o garçom, apontando para uma turma que aguardava de pé.  Mas o ritmo da casa é acelerado, no geral, e rapidamente apareceu um lugar – compartilhado com outras pessoas.

Os pratos do Acarajé são gigantes, especialmente os “triviais”, vastos combinados de carnes, arroz, frituras.  Há também muitas sugestões mineiras, churrasco, virado à paulista…  Mas o forte são mesmo os itens à sertaneja (preços entre R$ 30 e R$ 40; e caldos em torno de R$ 6).  A favada, por exemplo, é bem apurada, com fartura de carne de porco, ainda que com grãos mais cozidos do que eu gostaria.  Num desvio de rota, digamos, e por sugestão do atendente, fui no caldo de vaca atolada, também muito franco de sabor, com bom ponto de sal.  Mas na hora de provar o torresmo, nem tão crocante, nem tão gostoso, é que se percebe como o Mocotó virou o gabarito para certas coisas.  Eu sigo à procura.

Por que estes restaurantes? Porque são casas de sucesso em suas regiões (e porque eu ando em busca de um novo Mocotó).
Valem? São duas opções populares, para almoços sem pretensão (e luxo nenhum).  No caso do Acarajé, talvez só compense se você estiver em Guarulhos.

Do Sertão R.  Santo Antônio, 1.184, Bela Vista, 3107-0884
Acarajé R.  Quitandinha, 183, V.  Galvão, Guarulhos, 2452-5029