Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Em busca de uma simples casalinga

17 março 2011 | 07:25 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 17/3/2011

A Itália que São Paulo inventou, de certa forma, já nasceu unificada. Especialmente aquela da cozinha das cantinas, implantada pelos imigrantes. No tradicional menu cantineiro sempre coube de tudo, sem limites de território, sem conflitos: parmigiana, bolonhesa, romanesca, napolitana, toscana… Aqui, longe da terra natal, eram todos paesani, sem muita distinção. E nossos restaurantes (os de perfil mais popular) acabaram compondo aqueles cardápios gigantes, capazes de abarcar toda uma nação – ou melhor, todo um país recriado pelo filtro da saudade.

E qual o problema de misturar tudo, seja borrando as fronteiras regionais, seja fundindo com os costumes locais? Nenhum. A questão é que não necessariamente a cucina ítalo-paulistana produziu boa comida. Fartura, um certo folclore, molhos carregados e cozimentos excessivos, em resumo, acabaram se tornando as marcas do estilo, mais do que os méritos à mesa.

A Itália de matriz clássica, a cucina de face moderna, os menus veramente regionais, tudo isso veio depois, para se consolidar em especial nos anos recentes. E nos aproximou um pouco mais daquilo que a terra da pizza e do cotechino realmente é: um país ricamente fragmentado em sua gastronomia.

Eu ainda acho que, no geral, continuamos carentes de diversidade, pois os cardápios são quase repetitivos. E, em particular, sinto falta da boa casalinga. Das trattorie com pratos simples, francos, saborosos. Mas não desisto de procurar. Eis aqui três exemplares, abertos há pouco tempo, e bem diferentes entre si.

Piano Piano. A linguagem culinária do cuoco Felipe Cilli, que morou na Itália e trabalhou em vários restaurantes da cidade (como o judaico Goody), lembra o estilo das cantinas. Mas o restaurante vai além disso, e apresenta uma proposta de feição mais tradicional, com cozimentos lentos e molhos de elaboração razoável. O pappardelle com ragu de cordeiro (R$ 28) é uma boa pedida, assim como o tiramisù (R$ 10). O interessante foi tentar pedir uma massa em meia-porção, como primeiro prato. Não podia, segundo os garçons. Mas o chef ficou tão feliz ao encontrar alguém disposto a “comer à italiana”, que preparou a piccola porzione. Por que então não incorporar essa alternativa ao cardápio? Será que não cabe também ao restaurante a tarefa de formar seu público?

Benvenuto. Instalado numa galeria na Rua Augusta, este pequeno restaurante tem mesmo ambientação de trattoria moderna. É pequeno, despojado, tem apenas um garçom – ainda que o serviço funcione direito. E serve pratos baratos, executados sem deslizes, como crema di pomodoro (R$ 10) e espaguete à carbonara (R$ 17). Nada muito brilhante, se analisado com rigor. Mas muito adequado, se a intenção for apenas uma refeição despretensiosa.

Zino. A cucina proposta por este agradável endereço é cheia de ambiguidades. Mistura elementos contemporâneos e transita principalmente no registro dos pratos triviais. No almoço, durante a semana, predomina o menu executivo, com opções como o espaguete com tomate e abobrinha (17,80). À noite e no fim de semana, vale o cardápio completo, com outras alternativas de massa e sugestões como o t-bone de cordeiro com aligot e cogumelos (R$ 36,80). Mas o curioso é que casa tem uma certa alma de enoteca italiana, com boa variedade de vinho em copo (quase 20 rótulos, em taças de 100 e 200 ml) e de queijos e frios para beliscar.

Onde ficam

Piano Piano – Av. Moema, 56, Moema, 5051-3053. 12h/16h e 19h/0h (dom., só almoço; fecha 2ª). Cc.: todos
Benvenuto – R. Augusta, 2676, loja 03, J. Paulista, 3081-0112. 12h/19h (fecha dom.). Cc.: todos
Zino – R. Joaquim Távora, 1317, V. Mariana, 5082-4308. 12h/0h. Cc.: M e V

 

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