Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Em Pinheiros, lá no alto

20 junho 2009 | 10:23 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 18/6/2009

Não se deve subestimar o poder do isolamento geográfico como elemento de preservação de costumes e tradições. Não apenas no caso de regiões específicas e de países inteiros, mas até no universo dos restaurantes.
Um exemplo. Estivesse a Compagnia Marinara inserida nos Jardins, em meio a um cenário dinâmico, com casas sempre se renovando, chegando, partindo, será que as coisas teriam ficado como têm sido desde 1990? É difícil dizer. Mas eu afirmaria que estar no Alto de Pinheiros, sem muitos competidores à volta, numa subida a meio caminho do espigão da Av. Cerro Corá, deve ter contribuído para que o restaurante conservasse uma atmosfera de refúgio.

O espaço continua confortável: salão amplo, janelões de onde se enxerga alguma coisa das partes menos altas da zona oeste. Mas com decoração e mobiliário que lembram mais o boom dos restaurantes de flat dos anos 80. E é curioso observar a altivez com que os garçons recebem os visitantes, fazendo questão de expressar todos os “boa tarde, bom apetite, de nada, volte sempre” a que têm direito. Teria o isolamento os protegido da onda blasé que vigora no serviço de tantos lugares?

Agora, a comida. Vale lembrar que este é um auto-declarado ristorante dedicado aos frutos do mar. E a função é cumprida? Talvez mostrasse mais brilho na época de abertura, até pela escassez de concorrentes – São Paulo, ainda que disponha de cena gastronômica variada, nunca teve nos pescados o seu forte (nossa fome de peixes acabou sendo canalizada para o sushi).

E o cardápio, extenso, não tem assim tanta variação das coisas marinhas. A maior diversidade fica por conta das massas. Mas o polvo cozido servido com limão e azeite (R$ 35) continua sendo uma entrada saborosa (e bem servida). Assim como o ravióli de caranguejo revelou-se o melhor prato da refeição (R$ 35), pela leveza e pelo frescor – aspectos que faltaram ao ravioli de bacalhau (R$ 48), de massa um tanto pesada. Já o robalo siciliano (R$ 55), cozido na panela, leva a pensar: já que se tratava de um bom produto, não haveria um modo menos intervencionista de prepará-lo, respeitando mais o ponto de cozimento, sem mascarar sabores?

Para minha surpresa, enquanto eu pensava na concepção passadista de alguns pratos, me deparei com uma sugestão de sobremesa aparentemente moderna: tapioca brulée (R$ 15). A tapioca (recheada com doce de leite) vem à mesa num prato com creme inglês e, por cima dela, um pouco mais de creme, desta vez com uma superfície de açúcar queimado. Não era o que eu pensava. Mas foi devidamente traçada.

Compagnia Marinara
Av. São Guálter , 777, A. de Pinheiros, 3021-0055
12h/15h e 19h/0h
(6ª e sáb. até 1h; dom., 12h/16h)
Cartões: todos
Cardápio: italiano, com peixes e frutos do mar
Avaliação: é um programa com jeito de escapada. Não apenas do eixo Jardins-Itaim, mas também rumo ao passado

Ficou com água na boca?