Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Posso servir seu carro?

08 fevereiro 2010 | 14:06 por Luiz Américo Camargo

Aquilo que, há tempos, eu venho chamando de over-serviço, superou as fronteiras do salão e foi parar na rua, na bancada do valet. Nesta semana, ao deixar meu carro com o manobrista de um novo restaurante (comentarei nos próximos dias), ele me recebeu assim:
– Olá, meu nome é Paulo, vou estacionar seu carro. Pode me procurar caso tenha algum problema, estou à disposição. Tenha uma ótima refeição.

Ok, não me tomem por rabugento. Foi gentil da parte dele, tudo certo, eu que devo estar com trauma de garçons que falam demais, são prestativos demais, presentes demais. Mas eu não pude evitar a risada (felizmente não percebida na situação; parecia só um sorriso de saudação), imaginando que, no limite, o que eu poderia pedir a ele? Que cuidasse bem do meu carro; que o trouxesse na hora em que eu fosse embora; o que mais? De resto, só faltou que ele perguntasse meu nome, para que a informação já fosse disparada, a partir dali, para todos os demais funcionários (aquele estilo loja chique de shopping center).

Fiquei depois me divertindo, viajando na possibilidade de o serviço de estacionamento fazer parte da tal da ‘experiência’. Assim: já durante o jantar, o manobrista entraria no salão e apresentaria uma carta de ceras especiais, já que o carro seria lavado e polido enquanto entradas e pratos eram sorvidos à mesa; na dúvida entre as alternativas de tom e de brilho, um sommelier para assuntos automotivos seria acionado, ajudando na escolha. Álcool e gasolina? De várias marcas, das melhores safras. Aditivo para combustível? Também haveria muitas opções, acomodadas em uma adega climatizada. Mas você poderia também trazer de casa seus produtos de confiança (com a devida cobrança da rolha; ou melhor, da tampa de rosca).

O carro retornaria reluzente, perfumado por dentro com essências especiais, tudo devidamente explicado pelo manobrista, mas não só: ao entrar, o proprietário seria orientado a acionar, simultaneamente, dois pequenos sprays, um com cheiro de mar, outro com cheiro de montanha. Ao se despedir, cobrando 10% sobre o valet, que ninguém é de ferro, o manobrista diria:
– Espero que o senhor tenha uma boa degustação.

E eu iria embora de apetite saciado, com o carro brilhando, com o motor tinindo, premendo sprays e decifrando cheiros. Snif, Snif… Mar y monte?