Paladar

Entre a janela e o corredor

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Entre a janela e o corredor

28 fevereiro 2013 | 00:14 por Luiz Américo Camargo

Olhando ao redor, não há sinal de praça de alimentação, com todos os seus cheiros, rumores, humores. De um lado, pelos janelões, os comensais têm a paisagem da Marginal do Pinheiros, com sua estranha e urbana beleza. Do outro, avistam o arejado terceiro piso do Cidade Jardim. Não é nada mau, portanto, se acomodar numa das mesas do amplo salão do Sottovento.

A casa, inaugurada em janeiro pelo empresário Arthur Briquet, do Gallery, segue a linha de outros lugares já abertos por ali: a de não parecer restaurante de shopping. E o truque funciona, pelas soluções arquitetônicas, pela ausência de fast-food – o nível dos estabelecimentos dos centros de compras, diga-se, subiu muito.

É shopping? No cardápio, pratos italianos e sugestões no forno a lenha. FOTO: Divulgação

Quem cozinha é Marcelo Laskani, que passou pelo Káa e pelo Girarrosto. Seu cardápio é majoritariamente de acento italiano, com sugestões de várias regiões (até pizza, à noite), tratadas nem sempre com ortodoxia.

O couvert (R$ 9,60) é simples e traz um bom pão da Jelly Bread. Há um carrinho com antepastos, manobrado por uma moça simpática e empenhada na venda de conservas, queijos e embutidos. Há também petiscos interessantes, como os bolinhos de bacalhau fritos à maneira de um tempurá (R$ 28), com crosta de tinta de lula; o cone de lulas crocantes (R$ 29); a berinjela defumada (R$ 23). Os pratos, por sua vez, têm virtudes. Mas não chegam a ser empolgantes.

Vejamos o pici à carbonara (R$ 51). Seu molho é ralo, embora a massa estivesse al dente. Não é uma subversão, nem um tributo ao original. Fica no meio. Já o polvo no forno a lenha (R$ 63) carece justamente das notas próprias desse tipo de assado. Os melhores provados? A paleta de cordeiro (R$ 68), seguida pelos gnocchi à romana (R$ 48, graúdos, aerados como um suflê).

Aparece algo de inconsistente também no serviço, que é gentil, mas fragmentado, descontínuo. A cada pedido, sempre tirado por um funcionário diferente, começava-se do zero. Quem anotou, quem avisou? Faltava o dono da área. A carta de vinhos? Restrita, repetitiva. Posto assim, a experiência é quase boa. Quase. E aí, eu preciso ir além.

Não vou pegar o Sottovento como símbolo da síndrome do “quase”. Até porque esse espírito tem se espraiado pelo cenário paulistano, novatos em particular. Porém, acho que tem faltado qualidade e ambição gastronômicas, o que não tem a ver com afetação ou com megainvestimentos (disso, há muito). É filosofia de trabalho. Queria ver profissionais cozinhando bem e com personalidade.

Pensando nisso, encerro a terceira visita. Pago, desço a escada rolante e vou olhar vitrines. Será que o que temos a almejar no futuro são almoços e jantares medianos dentro do shopping? E aceitar que o valor – o retorno por aquilo que pagamos – de nossas refeições seja cronicamente insatisfatório? Uma parte dessa história é com os chefs. A outra, com o público. Eu defendo que São Paulo poderia ser melhor. Eu ando querendo mais.

Por que este restaurante?
Por que é uma novidade?

Vale?
A refeição completa, sem vinho, passa dos R$ 100 por cabeça. Quase vale.

SERVIÇO – Sottovento
Av. Magalhães de Castro, 12.000, 3º piso, Shopping Cidade Jardim
Tel.: 3552-2812
Horário de funcionamento? 12h/15h e 19h/0h (sáb., dom. e feriados, 12h/17h e 19h/0h)
Cc.: todos

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