Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Escolha no balcão, coma à mesa

12 abril 2012 | 09:46 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 12/4/2012

O primeiro alerta a ser feito é que, principalmente na entrada e nas primeiras mesas do pequeno salão, este restaurante cheira um pouco a… peixe. Simplesmente porque ele também é uma peixaria. É bom avisar, pois o lugar pode não ser adequado para um primeiro jantar com a futura namorada ou para um almoço formal de negócios. Dito isso, vou direto ao ponto: trata-se de uma iniciativa muito interessante, dentro de uma modalidade na qual a cidade é carente.

A Peixaria abriu em fevereiro, em Moema, sob o comando do jovem chef Cauê Tessuto. Na frente, funciona a loja de pescados; no ambiente contíguo está o restaurante, que se abastece obviamente da bancada do peixeiro Ivan. Conforme saem os pedidos, ele prepara as porções, que seguem direto para a cozinha – o que o torna uma espécie de coautor dos pratos. E você pode até palpitar na escolha: “Aquele… não, o de trás”.

O cardápio é conciso e o sistema, descomplicado. Há umas poucas entradas e guarnições e até duas sugestões de carne bovina. Funciona assim: os peixes e frutos do mar podem ser servidos em três variações, grelhado, assado com sal ou frito, conforme o fim culinário mais adequado. E cobra-se o preço do balcão do peixeiro com um acréscimo de R$ 10 pela preparação. Tessuto trabalhou por anos no País Basco, inclusive no triestrelado Martín Berasategui. Sua mensagem gastronômica é clara e objetiva: ele só quer que a matéria-prima seja a protagonista do restaurante.

E eu comi bem pedindo ostras de Cananeia, vendidas por unidade (R$ 3), e entradas fartas como o polvo com molho de tomate (R$ 15) e os camarões no alho (R$ 36), ambas feitas com respeito aos pontos de cocção. E só gostaria que a garoupa na grelha (R$ 32,37, um pedaço de 280 g) estivesse mais úmida no centro. Porém, num outro dia, num almoço no meio da semana, acabei me dando ainda melhor. Pelo preço do menu executivo (prosaicos R$ 21), provei sardinhas assadas para começar e linguado grelhado com purê de batatas como principal.Peixes frescos e sem grandes intervenções, como deve ser.

A Peixaria tem ambiente despojado como uma tasca, mas é atenta aos detalhes. Como o couvert (gratuito) com pão, flor de sal, azeite, manteiga e o pescado do dia em escabeche. Ou o capricho da salada de tomates, pepinos, cebola roxa e chorizo (R$ 11). Sua proposta não é inédita, mas pode contribuir para que os paulistanos se acostumem mais a pescados frescos e sem cozimento excessivo. Uma tarefa que não foi abraçada por vários grandes restaurantes especializados, que continuam a servir aquele peixe ressecado, aquele camarão rijo… Que, enfim, preferiram endossar a “aflição” do público ao quase cru, em vez de propor um jeito mais gastronômico de comer. Algo inexplicável numa cidade que adora sushis e sashimis. Mas eu acho que isso há também de evoluir. E quem sabe comece no simples ato de se reconectar com a barraca do peixeiro.

Por que este restaurante? Porque é uma boa novidade

Vale? Vale

A Peixaria – R. Canário, 745, Moema, 5051-0575. 12h/16h e 20h/23h30 (3ª e 4ª só almoço; sáb., 13h/17h30 e 20h/ 23h30; dom., só 13h/17h30; fecha 2ª). Cc.: todos. Manob.: não tem

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