Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Espere até chegar sua vez

02 dezembro 2011 | 05:28 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 2/12

Num dado momento, torna-se um jogo. “O 61, qual é?” E o garçom responde, imediatamente, a que prato o número corresponde. “E o 125?” Idem, com instantânea espontaneidade. Outros testes se seguem, até que a arguição perde a graça. O garçom do Ton Hoi sabe de cor tudo o que está no cardápio de mais de 200 itens contendo peixes, massas e afins. “São 20 anos de casa”, ele argumenta.

Todos da brigada de serviço conhecem não só o repertório culinário, mas as idiossincrasias de seus donos. Pois o Ton Hoi é um restaurante um tanto codificado, o que talvez dificulte a vida dos visitantes novatos. Porém, superadas as barreiras do contato inicial, é difícil não reconhecer que se trate em essência de um lugar onde se come bem e a bom preço.

Não há reserva e a casa está sempre cheia. As pessoas chegam cedo ou, inevitavelmente, esperam. Mesmo os habitués (que são muitos e de diferentes gerações) passam pelo mesmo ritual: dão o nome na porta e só entram quando autorizados. Questão de controle de fluxo, dizem os responsáveis.

Eu mesmo já me irritei várias vezes. Cheguei, digamos, às 12h10 (abre ao meio-dia) e, diante da evidente lotação, conformei-me com uma mesinha lá fora, somente para espera. “Posso pedir alguma coisa enquanto aguardo?” “Sim, claro.” “Queria este aqui, então.” “Este não pode.” “Por quê?” “Porque, aqui, não pode.” É assim, e às vezes é chato. Ou, se você estiver em domínio da sua fome e do seu humor, é engraçado. Para quem conhece o seriado Seinfeld, é impossível não relacioná-lo ao episódio do The Chinese Restaurant (com momentos, por que não, de The Soup Nazi).

Mas tudo muda depois que você é chamado e entra no asseadíssimo salão, com vista para a cozinha envidraçada. E quando você toma contato com a delicadeza das massas, todas feitas na hora, como os pasteizinhos kwuo thie (R$ 28,90, servidos só durante a semana). E com o frescor dos frutos do mar, como os camarões empanados (R$ 55,50, de cocção perfeita por dentro, envolvidos numa crosta leve e dourada), e o siri com cogumelos (R$ 42,80). Ou com a fartura – que remete mais à gula do que à gastronomia – do trio campeão, com lulas, mexilhões, camarões, brócolis, acelga (R$ 72, para dois ou três).

Tommy Wong, o chef, foi formado na cozinha por seu pai, Wong Chung Yuk. Seus assistentes, por sua vez, nunca trabalharam em nenhum outro lugar, aprenderam ali. Tanto controle sobre os processos, os donos mesmo reconhecem, tem limitado a capacidade de atendimento do restaurante, que funciona só de quarta a domingo. Porém, se nos últimos 30 anos as regras têm sido assim e a clientela segue fiel, por que razão eles haveriam de fazer concessões?

Por que este restaurante?
Porque é bom e, embora relativamente famoso, muita gente nunca o visitou. Em meio a novidades que vão abrindo na cidade, me senti mais inspirado a falar do velho Ton Hoi. Um clássico que continua em forma.

Vale?
Vale. As porções são compartilháveis e a cozinha é muito competente. Come-se bem por menos de R$ 50/pessoa. Um programa para quem se interessa por comida mais do que serviço e ambiente.

Ton Hoi – Av. Prof. Francisco Morato, 1.484, Butantã, 3721-3268. 12h/14h30 e 19h30/22h (fecha 2ª e 3ª; almoço de 5ª a dom.; jantar de 4ª a sáb.,).Cc.: todos. Cardápio: chinês

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