Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Está quente?

31 janeiro 2011 | 12:15 por Luiz Américo Camargo

Eu pretendia fazer meu almoço de domingo num determinado restaurante. Não deu certo, parti para outras alternativas. Liguei para vários lugares, de perfis diferentes. Tudo cheio, a maciça maioria estava com filas de espera.

Não é científico, eu sei. Nem o domingão deve ser tomado como referência de comportamento-padrão. Mas, convenhamos, eu rodo bastante por restaurantes e posso garantir que não é só impressão (e vocês mesmos têm constatado): a demanda está muito aquecida.  É até um dos aspectos, a meu ver, que tem puxado os preços das refeições para cima. Relação de oferta e procura. Mas não vou falar das contas desta vez. Quero ir além.

Acho que os restaurantes das grandes cidades brasileiras, SP e RJ em especial, têm uma grande oportunidade pela frente. Talvez os estabelecimentos estejam diante da maior chance real, nos últimos anos, de aumentar a base de clientes. O que eles vão fazer com isso? Não estou me referindo apenas ao business.

Estamos – o Brasil – numa maré econômica mais favorável do que outras economias importantes do planeta. Há, sem dúvida, uma perspectiva de crescimento. Existe aí uma nova classe média (e a famosa e disputada classe C), chegando com sede de consumos de produtos e serviços. Temos, pela frente, eventos internacionais de grande porte, como Copa do Mundo e Olimpíada. E há uma outra questão. O momento demográfico do país é interessante, com grandes faixas de população adulta e jovem adulta.

Milhões de pessoas que vão voar de avião pela primeira vez. Milhões que vão perseguir o primeiro carro, a casa própria. E, o que pouco se comenta, talvez milhões fazendo a sua estreia em restaurantes.

Comer fora é uma necessidade diária, uma imposição da rotina de trabalho. Porém, comer fora como programa, como entretenimento, como fonte de prazer, é um pequeno luxo. Para muitos, um sinal inequívoco de ascensão social.

Bom, eu não sou sociólogo, demógrafo, economista nem nada do gênero. Não vou citar estatísticas  nem fazer projeções de cenários. Nem vou falar de percentuais, investimentos. Não sou jornalista da área de negócios. Porém, quero dizer que nossos chefs e restauradores estão diante de um contexto aparentemente muito favorável.  Partindo disso, deixo aqui duas perguntas.

– Os restaurantes estão preparados para esta nova onda de consumidores? Tanto no sentido de acolher uma clientela neófita, como no de satisfazer os frequentadores mais experientes?

– Será que, com mais massa crítica (com trocadilho), com mais estabelecimentos, mais recursos em circulação, teremos um ganho gastronômico? Inclusive com mais profissionais e lugares dedicados à cozinha brasileira, em suas muitas variantes?

Eu não sei. Mas acalento algumas esperanças.

Com o perdão do clichê, acho que a qualidade pode vir da quantidade – pois estamos precisando de mais restaurantes bons, não apenas de coisas medianas.

Na prática, sendo muito otimista, isso bem poderia desencadear uma revolução em várias frentes. Melhoria da cadeia produtiva, impactando num fornecimento melhor e mais organizado de boa matéria-prima. Elevação do nível técnico das cozinhas e mais profissionalismo do serviço. A formação de uma base de público capaz de exigir mais, cobrar mais, de consumir com mais critério. Mais benefício para o custo. E neste aspecto, claro, a imprensa tem um papel fundamental.

Talvez eu esteja sendo ingênuo, considerando que estamos diante de um já incontrolável processo virtuoso de amadurecimento do mercado. Talvez eu esteja apenas contaminado por um espírito bem próprio dos brasileiros quando em boa fase: vendo o futuro como se fôssemos merecedores de glórias inevitáveis.

Ou quem sabe a onda passe e não tenhamos nada muito além do que contas ainda mais caras e filas ainda maiores – mas aí é a radicalização do argumento pelo outro lado.

Nesta fase de rearrumação, eu acho até que temos motivos para ter um ponto de vista um pouco mais positivo. E esperar que da efervescência surjam coisas melhores do que a média atual (que, por sua vez, já é melhor que a média de dez anos atrás…).